Se quiséssemos estabelecer um paralelo entre o Tempo e a Vida bem poderíamos dizer que somos inexoravelmente empurrados para a frente. O que equivale à constatação de que tal se traduz em nos acercarmos cada vez mais do fim… A condição humana, todavia, encerra em si um paradoxo, como seja o de nos pensarmos eternos, bem sabendo que o não somos de todo. Salvo espíritos de lucidez elevada, tendemos a viver o dia a dia como se tivéssemos sempre tempo de corrigir os nossos erros, mas Não estamos! Por outro lado, a consciência intrínseca da nossa perenidade faz-nos ser empreendedores e ter sede de conquista, realizar coisas e deixar Obra, não sermos acomodados. No equilíbrio entre a dimensão terrena e precária da nossa existência e a comunhão com um Cosmos que nos transcende e ao qual regressaremos finalmente, estaria a justa medida da força do Vento que nos impele. Então porque é que não está?!
Em finais de Fevereiro o Rotary Club de Águeda comemorou o aniversário da sua organização internacional com uma palestra sobre o tema “A Paz é possível”, tendo como orador o Eng. Pedro Jordão, figura de elevada estatura intelectual e com um vasto background internacional em geoestratégia, geopolítica, economia global e segurança internacional. Personalidade que vale a penha cultivar. Para o evento foram convidadas diversas individualidades, bem como todos os membros da Assembleia Municipal, incluindo os presidentes das Juntas de Freguesia. Apenas um deputado municipal compareceu e nenhum presidente de Junta esteve disponível. Certamente outros compromissos importantíssimos os ocuparam, certamente. Perderam, contudo, uma soberba oportunidade de saber mais. É que palestras desta qualidade não surgem amiúde e, quiçá, desperdiçaram uma oportunidade ímpar de ouvir falar de assuntos que todos nós, de uma forma ou de outra já ouvimos, mas com a diferença de, desta vez, serem abordos por quem realmente deles percebe.
Há uns tempos atrás, a propósito de um outro meu editorial, recebi um telefonema a “desancar-me” por escrever sobre aquilo que supostamente não sei e que não procurei saber. Tratava-se da Carta Educativa e da posição assumida pela Assembleia Municipal de ter chumbado a proposta do executivo sem adiantar soluções ou auxiliar a elaboração de novo documento. No fundo, insurgi-me contra uma tomada de posição que criou um vazio numa matéria de grande importância para o nosso Concelho, supondo que tal tomada de posição não deveria ter sido meramente destrutiva, mas que deveria de imediato ter-se seguido de iniciativa construtiva por parte daquele órgão autárquico, sem postergar as competências políticas respectivas. Afinal, bastava por a funcionar - como se veio a fazer - a comissão municipal de educação que, pelos vistos, vai aportar importantes sugestões ao documento a elaborar pelo executivo. Reconheço-me pois com razão e o meu escrito não foi assim tão destituído de sentido como o meu interpelante pretendia. Pena que ele só conheça o meu número de telemóvel para criticar… e já é a segunda vez!
Acabo a concordar com o José Vidal sobre a não inerência dos presidentes das Juntas de Freguesia como deputados municipais. Não se afigura possível que se defenda a um tempo os interesses do Concelho no seu todo unitário e os de cada Freguesia em particular. A prática da vida autárquica tem-no demonstrado. Para além de que não são escrutinados para esse fim, mas tão só para administrar as respectivas Freguesias. O resto é um artifício da Lei que se vem revelando despropositado. A democracia também se deve ir amadurecendo e os órgãos autárquicos, neste caso a Assembleia Municipal, não pode servir de meio de pressão para interesses que não sejam os do Concelho. A fuga de informação sobre a Carta Educativa é um bom exemplo do que acabo de dizer.
Vem aí o novíssimo mapa judiciário e, à última da hora, sem qualquer justificação, nem técnica nem política sequer, o tribunal de grande instância cível foi “deslocado” de Águeda para Anadia. Não quero nem sequer pensar que foi para calar vozes daquele município, tão useiro em manifestações de rua que até cansa os governantes!... Não me ofenderia tal mudança se sustentada em opções de fundo, mas fazê-lo assim, como que de improviso, deixa-me um desconforto moral bastante profundo! Não me esqueço de que em seu tempo um eloquente tribuno de Aveiro obrigou a uma curva na linha do caminho de ferro que, então, passava inicialmente por Águeda… A história repete-se.
O resto, de resto, são como as eólicas no concelho vizinho e nós preocupados em medir o vento! Teremos ainda tempo para corrigir os nossos erros?
Rui de Almeida Bastos