A inspiradora história de vida do escultor do micro pai natal

Willard Wigan, autor do microscópico pai natal (foto JA Reportagens)

“O meu trabalho tornou-se a minha voz”, disse Willard Wigan, o autor do micro pai natal que pode ser visto no posto de turismo de Águeda, em entrevista ao nosso jornal

O escultor britânico, nascido em Birmingham, em Inglaterra, em 1957, assume-se como a voz das coisas pequenas, do invisível, do minúsculo, exatamente como se sentia aos 5 anos quando era gozado pela sua professora e pelos colegas pelas dificuldades que tinha em ler ou escrever ou simplesmente pela sua cor de pele, que tantas vezes esfregava até fazer sangue para que atingisse a brancura da dos colegas, como nos relatou de forma impressionante.
Willard Wigan habituou-se por isso a olhar para as coisas pequenas e foi na escola primária que começou a esculpir objetos minúsculos, casas para formigas, porque pensava que elas precisavam de um lugar para viver, que os colegas começaram a achar piada e a pagar por eles. Transformar esse seu talento de miúdo em arte foi talvez a melhor resposta que o escultor poderia ter dado à professora e aos preconceitos e humilhação de que foi alvo em miúdo.
“Aquele era um mundo de fantasia para o qual eu escapava, onde a minha dislexia não me atrapalhava e meus professores não me criticavam. Foi assim que começou minha carreira como micro-escultor”, conta Willard Wigan.
Neste percurso artístico de transformar o invisível a olho nu em arte, Willard lembra o papel que teve a sua mãe, que sempre o incentivava a reduzir os objetos: “dizia-me se eu o consigo ver é porque não está suficientemente pequeno”.
Willard sabe que normalmente o pequeno não é valorizado pelas sociedades, por isso diz que este seu trabalho lhe ensinou muito sobre a vida e as pessoas. O escultor retrata um mundo que existe mas que nem sempre é notado, e é esse mundo que a sua arte revela, e que é visto por milhares de pessoas. “Gosto de sentir que o meu trabalho é apreciado pelas pessoas de todo o mundo; por isso sinto que quando concluo um trabalho ele não é mais meu”, sublinha.

“TRABALHO AO RITMO DOS BATIMENTOS CARDÍACOS”

Willard faz peças que cabem dentro do buraco de uma agulha ou em cima da cabeça de um alfinete, um processo que requer, conta-nos, uma concentração que, muitas vezes, só consegue ter à noite, quando há menos barulho. É um trabalho muito intenso e stressante e até doloroso, feito ao ritmo dos batimentos cardíacos para evitar o tremor natural das mãos.
Filho de imigrantes jamaicanos, as peças esculpidas por Willard conquistaram a admiração do mundo e até da rainha de Inglaterra, para quem fez uma peça.
Em julho de 2007 foi distinguido como membro da Ordem do Império Britânico (MBE), título conferido pela rainha a quem presta relevantes serviços numa determinada área.
Em janeiro de 2018, Willard Wigan recebeu o título de doutorado honorário da Universidade de Warwick, em reconhecimento pelos seus relevantes contributos à arte e à escultura.

“ESPERO VOLTAR PARA O ANO”

Na hora da despedida, Willard elogiava a comida, as pessoas e a cor da cidade de Águeda, bem como a sua tranquilidade, esperando voltar para o ano e trazer uma exposição com 25 peças suas.
“Uma peça minha não é uma escultura; é uma mensagem”, disse-nos Willard antes de terminar, acrescentando que o seu trabalho “mostra que nada é impossível e que podes alcançar coisas que antes consideravas impossíveis”.

ISABEL GOMES MOREIRA
Foto: Willard Wigan, autor do microscópico pai natal (foto JA Reportagens)
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