A toxicodependência que não se vê

Toxicodependência não se vê mas tem aumentado - diz especialista

Ao contrário da perceção existente na sociedade sobre a toxicodependência, há cada vez mais consumidores de cannabis e há substâncias novas e cada vez mais potentes. Quem o disse foi Emídio Rodrigues, coordenador do Centro de Respostas Integradas (CRI) de Aveiro, perante professores e outros educadores que participaram no seminário promovido pela Comissão de Proteção de Crianças e Jovens (CPCJ) de Águeda

Há um recorde de apreensão da cannabis e os portugueses estão a consumir mais crack, denunciou aquele responsável. Trata-se de um “problema devastador”, associado ao “acesso facilitado” às drogas. Os próprios consumidores dizem que “é mais caro beber um gim que fumar crack”.
Falando para cerca de 300 agentes de educação presentes no seminário, realizado no Centro de Artes de Águeda, Emídio Rodrigues reforçou a ideia de que há dependências “cada vez mais potentes”; e que a sociedade atual, em que “todos nós fazemos um esforço para ser melhores”, contribui para o aumento da toxicodependência.
Deixou, contudo, dois avisos aos decisores públicos: que, em simultâneo à necessidade de uma intervenção que vá ao encontro das novas exigências, “os serviços estão a definhar, em meios técnicos e humanos”; e que muitas das medidas que têm sido adotadas são influenciadas pela “perceção” que a opinião pública tem sobre a matéria e não tanto na sequência de suporte científico.

JOVENS FACILMENTE CONDUZIDOS

No distrito de Aveiro, as duas unidades do CRI existentes – em Aveiro e Santa Maria da Feira – registam “quase tantos utentes” em tratamento de dependências como na restante região centro.
“Muito no nosso quotidiano é baseado em notícias e os jovens são facilmente conduzidos por aí”. As fake news (notícias falsas ou desinformação) “confundem propositadamente a opinião pública”, porque “tudo isto não passa de um grande negócio”, afirmou. Deu como exemplo as notícias que têm dado conta de benefícios da cannabis para o tratamento de doenças. Pelo contrário, referiu que a cannabis “aumenta o risco de psicose” e que “são mais as situações” em que os riscos aumentam do que as vantagens que advêm do seu consumo. Acrescentou ainda: “A parte má da substância sempre predominou sobre a parte boa, mas agora aumentou de 4 para 19 por cento, enquanto a parte boa se mantém na percentagem que tinha anteriormente”.

PERCEPÇÃO ERRADA DA OPINIÃO PÚBLICA

Para Emídio Rodrigues, a criação de salas de chuto e a própria designação do programa nacional – era de luta contra a droga, fala hoje em redução de comportamentos – revelam uma “aceitação” do consumo.
Afirmando-se “conservador” relativamente aos efeitos nocivos do consumido da cannabis e derivados, Emídio Rodrigues deu conta de que a perceção da opinião pública em torno da problemática mudou nas décadas recentes. “Os relatórios dizem-nos que o número de pessoas a usar drogas aumentou”; porém, “nos anos 90 a preocupação principal de um pai era que o filho pudesse vir a tornar-se toxicodependente. Hoje, essa preocupação está em sétimo lugar entre os portugueses, diluído na complexidade da nossa vida”.
Emídio Rodrigues justificou a “perceção errada” do problema: nos anos 90 as adições viam-se nas ruas – em cafés ou junto a cabines telefónicas, que eram usadas também para comunicação -, enquanto hoje os locais de transação e consumo e os contactos telefónicos são mais discretos.
“Em Águeda havia dois ou três cafés onde se encontravam e partilhavam informação, hoje isso mal se vê; mas não quer dizer que esteja diferente”, alertou, sublinhando que o mesmo se passa noutros centros urbanos próximos. Certo é que o número de consultas no CRI tem aumentado, designadamente com utentes de Águeda – revelou ainda.

O VÍCIO DO JOGO ONLINE

O coordenador do CRI de Aveiro afirmou ainda que o vício pelo ‘gaming’ e pelo ‘gamling’ – pelo jogo e pelo jogo a dinheiro online – “está a crescer em Portugal”, também entre jovens, e que “há gente desesperada”. Justificou: “É o nosso quotidiano e as nossas aspirações que estão em causa”. Para muitos significa a oportunidade de “aumentar o rendimento de uma vida miserável” e também “a esperança do indivíduo nesta sociedade que é muito centrada na produção e na economia”.
Esta realidade vem-se “intensificando”, tal como o uso do telemóvel como “prolongamento do nosso corpo” e que já não serve apenas para telefonar.

AUGUSTO SEMEDO | texto
(reportagem completa na edição de 18 de setembro – versões e-paper e impressa)
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