Aguedense guardião da história que alimenta sonhos

Júlio Dinis Saraiva

Júlio Dinis Saraiva tem 75 anos mas não para. Guarda a história, mantém sonhos. Protege acervo que ajuda a perceber a forte identidade aguedense – será um crime perder-se – mas dá-o a conhecer. Com visível orgulho. Testemunhámo-lo a última vez em Viseu, fazia calor em agosto, na etapa derradeira da Volta a Portugal 2017, um contrarrelógio individual… como em Águeda, fará 40 anos em agosto de 2018

Júlio Dinis Saraiva leva consigo toda a documentação de um dia grande para Águeda: a primeira vez que uma Volta a Portugal não terminava em Lisboa ou no Porto. Com o enorme envolvimento coletivo da época. Com a festa e o sentimento da época. Com a indústria e as pessoas da época. Com o orgulho da época. Com o Aguedismo da época.
Os sonhos continuam 40 anos depois dos 35 para este Aguedense que faz do ciclismo a sua “válvula de escape”. Foi dirigente e comissário nacional, mas ainda hoje gosta de viver a adrenalina do ciclismo, um “remédio anti stresse que por vezes traz ingratidão” mas também “é uma fonte de amizades”.
“Esporadicamente” tem uma tarefa no controlo antidoping: “Vigiar o ciclista sorteado para ir ao controlo, entre os dois que o são em cada dia de prova, desde que corta a meta até que chega ao local”.
Porém, o que Júlio Dinis Saraiva gostaria mesmo era de um final de Volta em Águeda em 2018. Assinalaria os 40 anos do final marcante de 78. A situação já tinha sido abordada há 10 anos. “Não quer dizer que seja inviável, já abordei novamente o assunto com o Joaquim Gomes, mas grande parte da comparticipação teria que vir da indústria local”. De qualquer modo, em Viseu, não deixou de ir à sala de imprensa mostrar aos descendentes de Homero Serpa, que para “A Bola” mostrou a Águeda dos anos 70 e cobriu a Volta de 78, o que sucedeu então na terra do empreendedorismo e da afirmação da indústria nacional. Para espanto… pelas relíquias tão bem estimadas e pela afirmação do génio aguedense.

DE MOURISCA À BORRALHA

Júlio Dinis Saraiva estudou na escola primária de São Sebastião, em Mourisca do Vouga, e na Escola Industrial e Comercial de Águeda (EICA), no curso de comércio. Foi trabalhar para a Lusitana em 16 de agosto de 1958. O preciosismo da data traduz a minúcia com que trabalha e se dedica escrupulosamente aos projetos. “Ia de bicicleta da Mourisca para a Borralha”. De 1977 a 2013 foi sócio daquela empresa de componentes para as duas rodas. Casaria na Borralha em 1966.
Foi guarda-redes no Recreio de Águeda. Jogou no velho São Sebastião, hoje Praça do Município, em finais dos anos 50 e princípios de 60. Interrompeu por causa dos três anos na tropa. “Tenho aqui um emblema do Recreio”, diz. “Num jogo com a Ovarense, um forte remate do pai do Semedo, que jogou no Porto, deu-me cabo da clavícula”. Seria ainda guardião de balizas pelas Velhas Guardas, no torneio de veteranos “As árvores morrem de pé”.
Hoje, como dirigente, está ligado ao paraciclismo e coordena a seleção para deficientes intelectuais. “Um trabalho gratificante, social, de enorme riqueza humana”. E revela: “Temos um projeto para fazer o Mundial 2020 na nossa região, com o apoio das câmaras de Águeda e Anadia e Vagos ou Ílhavo”. Os custos com o policiamento são o que levanta maiores problemas na estrutura financeira da competição.

AS BICICLETAS E O ABIMOTA

Sobre o sonho de voltar a ver um final da Volta em Águeda, Júlio Dinis Saraiva não tem dúvidas do impacto financeiro que teria e também na afirmação da Águeda atual. “As duas rodas continuam concentradas aqui, apesar da escala ser menor, mas nas bicicletas continuamos a ter expressão”. O mercado tem “melhorado”, salientando que “somos fabricantes sobretudo de componentes”. As bicicletas, como um todo, “algumas são produzidas em Portugal, saem e depois voltam a entrar com outra marca”.
Júlio Dinis Saraiva foi diretor de corrida do grande prémio ABIMOTA, que ajudou a criar e a desenvolver. Ressalva o prestígio da competição, a segunda mais antiga do ciclismo nacional (só a Volta tem mais edições…), e a capacidade organizativa. Mais uma vez os custos com o policiamento são o alvo: “São 4.500 euros por dia, um batedor por cada 10 ciclistas, mais um comandante, um segundo carro e o policiamento apeado por onde passam as etapas, que durante anos não era pago e agora é”. Ademais, os agentes apeados “fazem o serviço por períodos de quatro horas apesar do tempo de passagem ser inferior”.

AUGUSTO SEMEDO
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