A Moviroma – Indústria de Mobiliário, localizada no Raso de Paredes (Águeda), completou meio século de vida este ano. Albano Melo fundou a empresa aos 17 anos e, na sequência de problemas de saúde, teve de deixar de trabalhar há cerca de três anos. Ao RA recorda os dias gloriosos da indústria em Águeda e um percurso de vida de trabalho, de dificuldades, mas também de muitas vitórias
“Venci na vida com muito trabalho e seriedade”, refere o empresário, com orgulho, na sala de reuniões da empresa que funou há 50 anos, que exibe nas paredes os vários prémios conquistados ao longo deste meio século de vida, nem sempre feito só de momentos fáceis. “Tive fases da vida em que pensei que tinha de fechar as portas, mas felizmente fomos conseguindo vencer as dificuldades e os percalços”, afirmou o empresário de 78 anos de idade, natural de Casal de Álvaro, onde viveu até aos 62 anos e fundou a sua empresa, que nessa altura se dedicava à fabricação de artigos para campismo. “Foi um desafio muito grande, porque na altura nem tínhamos luz elétrica em Casal de Álvaro”, recorda, acrescentando que “o que fizemos na altura eram impensável nos dias de hoje”. “Tivemos que começar por fazer as ferramentas e as máquinas para trabalhar”, conta Albano Melo, explicando que, na altura, optou por um setor que não era vulgar e uma atividade que desse para iniciar sem luz elétrica. “Não havia fundo de maneio; não havia nem sequer quem emprestasse”, refere. “Iniciámos a trabalhar com máquinas artesanais, algumas feitas por nós e outras que fomos adquirindo e, passado um ano, chegou a luz elétrica à localidade e começámos então a adquirir máquinas elétricas”, recorda, dando nota que só após dois anos começaram a entrar no mercado com produto. “Foi muito difícil, mas sempre acreditei nas possibilidades humanas; condições materiais não havia, mas havia muita força de vontade”, sublinha o empresário.
Dos artigos para campismo
aos acessórios para casa de banho
“Passados quatro anos, o meu sócio decidiu fundar uma outra empresa de artigos para campismo, mas eu decidi não ir”, lembra. “Continuei e fui diversificando o serviço em função das crises que surgiam até que, passados sete ou oito anos, deixámos os artigos para campismo e passámos a produzir artigos para cozinhas e mais tarde cozinhas completas, uma vez que o negócio já não era rentável”, afirma. “Nessa altura, começaram a surgir as televisões e decidimos começar também a fabricar mesas para televisão”, conta. “Daí passámos a produzir os artigos para casa de banho, já lá vão 30 anos”, refere.
Mas se ao longo de 50 anos houve períodos bons, houve também períodos menos bons e dificuldades pela frente. Albano Melo lembra esses períodos difíceis, nomeadamente o aparecimento do Euro e o “rombo” que isso representou na exportação da empresa, que era prática corrente até 2002. “Exportávamos para países que usavam o dólar como moeda, que começou a desvalorizar em relação ao euro e isso fez com que perdêssemos grande parte do mercado externo, por causa da diferença de câmbio”, diz. “Apesar de irmos exportando alguma coisa para os países da União Europeia, a percentagem é reduzida”, acrescenta.
Pioneira na fabricação de móveis de casa de banho no país, a Moviroma enfrentou também, como tantas outras, a agressividade da concorrência dos produtos chineses, respondendo com qualidade, como frisa Albano Melo.
Começou a trabalhar aos 12 anos
Albano Melo estabeleceu-se por conta própria aos 27 anos, mas já trabalhava desde os 12 anos de idade. Ganhava nessa altura quatro escudos por dia. “Aos 16 anos já era um profissional de primeira e ganhava tanto como os homens naquele tempo”, recorda.
“Quando iniciei a minha atividade por conta própria, abriram cerca de duas dezenas de negócios, mas desse grupo apenas sobrevivem dois”, conta ainda. “Naquele tempo não havia muitas indústrias e as que existiam era do setor das ferragens”, acrescenta o empresário, que trabalhou nessa área até ao dia que montou a Moviroma.
Albano Melo lembra ainda as dificuldades em receber e o dinheiro perdido com as insolvências.
O empresário recorda igualmente a crise da construção civil e como isso afetou a Moviroma, salientando que hoje continua a não haver grande construção nova, vendendo-se sobretudo produtos para recuperar casas ou hotéis.
Hoje não se constrói porque ninguém sonha com um lar e família”
Mas Albano Melo identifica uma outra crise, a qual não é muito valorizada na sua opinião, a crise da natalidade. “Hoje não se constrói porque ninguém sonha com um lar e família, que era o nosso objetivo antes”, diz. “Hoje privilegia-se o supérfluo, os passeios, as férias, o luxo, os jantares…”, acrescenta. “Usar e deitar fora, é o lema que impera na nossa sociedade atual”, conclui o empresário.
Falando do futuro Albano Melo diz que as empresas de Águeda têm de apostar nas novas tecnologias. A gestão da Moviroma, depois dos problemas de saúde de Albano Melo há cerca de três anos, é da responsabilidade dos filhos Albano Melo e Carlos Melo. Com uma vida de trabalho e 62 anos de descontos para a Segurança Social, é na pesca que Albano Melo se refugia.
(publicado na edição da semana – versões e-paper e impressa – de 15 de junho de 2016)
