Amadeu Castilho Soares – Papel de aguedense no desenvolvimento de Angola

Amadeu Castilho Soares

A tese de doutoramento do angolano Antunes Pinto, sobre análise dos manuais escolares do estado novo numa perspetiva pós colonial, aprofunda a intervenção que o aguedense Amadeu Castilho Soares teve em Angola com o plano de educação “levar a escola à sanzala” no início dos anos 60 do séc.XX

Amadeu Castilho Soares é natural de Sernada do Vouga, filho de um ferroviário ao serviço na Linha do Vouga (Miguel Soares) e da professora primária que dá hoje nome à principal rua da povoação (Alda Marques de Castilho) devido à insistência dos seus antigos alunos.
O aguedense, prestes a completar 90 anos de vida, foi secretário da Educação em Angola em 1961 e 1962, período em que o governador-geral da então colónia portuguesa era o General Venâncio Augusto Deslandes. O plano de desenvolvimento desta administração para Angola incluía a criação de uma universidade em Luanda e a disseminação do ensino pelo país.
Porém, o governo de Deslandes caiu em 26 de setembro de 1962, demitido pelo Ministro do Ultramar Adriano Moreira, por ter proposto a independência de Angola, nesse mesmo ano, ao governo de Salazar. Apesar da exoneração de Amadeu Castilho Soares, o projeto “levar a escola à sanzala” teve continuadores e repercussão.
Já o arrojo do aguedense não seria recompensado na sua carreira profissional, aquando do seu regresso a Portugal, por parte do governo de então. Amadeu Castilho Soares fora docente no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas antes de partir para Angola, lugar que não mais ocupou, apesar de ser então um jovem com 31 anos…

“FUNDAMENTAL” PARA ANGOLA

Para Antunes Pinto, “seria imprescindível não passar pelo Dr. Amadeu Castilho” para concretizar o doutoramento que tem em mãos. Este angolano de 35 anos, doutorando em estudos culturais pela Universidade de Aveiro, é professor universitário no Instituto Superior Politécnico Independente (em Huila) e Inspetor Provincial da Educação.
“Foi uma viragem significativa no ensino em Angola, pois o mesmo estava confinado aos centros urbanos”, referiu Antunes Pinto, para quem o projeto desenvolvido por Amadeu Castilho Soares foi “fundamental” para o desenvolvimento de Angola, num momento em que crescia o conflito interno com o desejo de independência da então colónia portuguesa.
A tese de doutoramento que Antunes Pinto desenvolve na Universidade de Aveiro aborda o ensino pré-colonial (1ª fase); o ensino na vigência colonial, dividindo-o até 1960 e a partir daí após a intervenção de Amadeu Castilho Soares (2ª fase); e por último a fase pós-colonial.

 

Um plano com reconhecimento internacional

O plano de governo apresentado em 7 de outubro de 1961 pelo General Deslandes ao Conselho Legislativo de Angola contemplava a introdução do ensino em meios rurais: a escola seria levada à sanzala (povoações nativas rurais ou suburbanas).
Amadeu Castilho Soares concretizou o que protagonizava no seu livro “Política de Bem Estar Rural em Angola”, editado pela Junta de Investigação do Ultramar em 1961. Promoveu a formação acelerada de 500 monitores rurais de ensino (com uma preparação equivalente aos terceiro e quarto anos de ensino) e a criação de manuais escolares adaptados à população africana, ilustrados com motivos que respeitavam a ambiência natural dos alunos.
Até então, o ensino era ministrado por missões religiosas a populações indígenas com línguas e culturas diferentes da portuguesa.
Paralelamente, foram criados cursos de regentes escolares e professores primários, devendo aqueles ter o primeiro ciclo do nível secundário. A sua formação era feita em cursos de dois anos, tendo como objetivo prosseguir o ensino até ao quarto ano. O curso far-se-ia em missões católicas dispersas pelo território. E, para a formação de professores primários, foram criadas as primeiras escolas de magistério primário.
O Ministério do Ultramar reconheceria o êxito do plano em 1964, aprovando a Reforma do Ensino Primário Elementar nas Províncias Ultramarinas. O decreto tomou por base o sistema adotado em Angola, embora pondo o acento tónico nos regentes escolares.
A revolução operada no ensino primário teve repercussão internacional, sublinhando o prestigiado The Economist que, de 1961 a 1963, o número de africanos beneficiando de escolarização duplicara; e comentando que “não podendo os alunos ir à escola, a escola vai agora até eles”. Do mesmo modo, o Centro de Estudos Estratégicos da Universidade de Georgetwon, de Washington, assinalava quer a africanização dos livros escolares quer o desejo de inculcar o espírito do multi-racialismo.

“Levar a escola à sanzala” continuou e replicou-se

O plano “levar a escola à sanzala” não terminou com a exoneração de Amadeu Castilho Soares. A equipa técnica que lançara o novo sistema de ensino – Inspetores Almeida Abrantes, Brito de Figueiredo e António Henriques Carneiro – deu-lhe plena continuidade e o novo titular da pasta da Educação, José Pinheiro da Silva, empossado em 26 de março de1964, abraçou-o inteiramente. Assim, a escola rural, para além da massificação do ensino, veio a desempenhar também um papel primordial no reordenamento das populações, contribuindo para a instalação de núcleos potenciadores do desenvolvimento agrícola e pecuário.
O sucesso do plano levou, em poucos anos, à sua implementação a outros territórios africanos sob administração portuguesa, nos quais a generalização da Língua Portuguesa permitiu que a mesma fosse proclamada como Língua Nacional desses países, aquando da sua independência, e à instituição da Comunidades dos Países de Língua Portuguesa (CPLP).

Quando discurso de José Eduardo dos Santos indignou

O jornalista/advogado angolano William Tonet publicou um texto no jornal Folha 8 na sequência de declarações de José Eduardo dos Santos, presidente angolano, na receção à chanceler alemã, Ângela Merkel, em 2015. Falou de “indignação, partilhada por muitos autóctones ao ouvirem o discurso do Presidente da República de Angola. Disse ele, mais coisa menos coisa, que em 1975, em Angola, somente dois entre 100 angolanos/negros, sabiam ler e escrever. Fiquei surpreso com esta estatística. Não éramos muitos é verdade, mas não éramos assim tão poucos…”
E foi ao baú pesquisar, para salvaguardar a história que tem como protagonista principal um aguedense. Intitulou o extenso escrito de “as contradições ou a falta de dados no discurso de JES (José Eduardo dos Santos)”.

SOUSA GALITO, Maria (2006). Entrevista ao Dr. Amadeu Castilho Soares. In (2007) Trinta Entrevistas no Âmbito da Diplomacia Económica de Portugal no Atlântico. CI-CPRI, ENT, Nº3, pp. 15-24
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