“As memórias que guardo de Águeda e da minha infância e juventude são maravilhosas” – Braz da Costa

Braz da Costa durante a sua participação na iniciativa "EntreTanto"

O aguedense António Brás Costa, filho de uma das figuras mais emblemáticas de Águeda, o poeta popular “Braz dos Kiwis”, tem dedicado a sua vida à inovação, investigação e desenvolvimento tecnológico. Voltou em janeiro à cidade para participar na terceira sessão do “entreTanto”. Em entrevista ao Região de Águeda, fala do seu percurso, traça o retrato da inovação em Portugal e partilha as memórias que guarda da sua cidade natal

P> Pode falar-nos um pouco das suas origens?
R> As minhas origens são iguais às de tantos outros que nasceram em Águeda nos anos 60… Descendo de uma família rural, que fez o seu caminho criando o seu comércio e o seu negócio. Uma origem muito focada nos valores do trabalho, da honradez e muito determinada em dar a possibilidade aos filhos de ascenderem em termos sociais e económicos. Tive uma origem simples, mas muito verdadeira, muito ligada à terra e que me transmitiu um conjunto de valores que acabam por nos moldar para vida toda.

P> Que memórias guarda de Águeda e da sua infância e juventude?
R> As memórias que guardo de Águeda e da minha infância e juventude são maravilhosas. Vivi 18 anos em Águeda. Foram tempos caracterizados por duas coisas, aparentemente antagónicas. Por um lado, um grande foco na escola e nos estudos, por outro, pela loucura, pela vontade de fazer coisas diferentes, pela ligação ao Cancioneiro e à Orquestra Típica de Águeda e a outras iniciativas musicais, que nos permitiam viver muitas coisas interessantes, algumas pouco recomendadas, mas que hoje se relembram com saudade e até com algum apreço. É muito comum encontrar pessoas mais velhas, nomeadamente professores e professoras, que dizem que naquele tempo se faziam muitas loucuras, travessuras, mas eram coisas feitas com imaginação e nunca com a intenção de prejudicar alguém.

“A DESCOBERTA DA OUTRA METADE DO MUNDO”

P> Frequentou a escola em Águeda? Que memórias guarda desse tempo?
R> Fiz a chamada primeira classe na escola velha, em frente à garagem dos Oliveiras, e depois fui para a escola do adro até à quarta classe. Era um miúdo como todos os outros, talvez um pouco diferente em algumas coisas, uma vez que não gostava de jogar futebol. Nessa altura, tinha muito mais contacto com miúdos de condição social e económica mais baixa. Em 1972, fui para a escola preparatória Fernando Caldeira e depois para a escola secundária de Águeda, que hoje se chama Marques de Castilho. Foi nessa altura que, de alguma forma, abri mais os meus horizontes, ao nível dos relacionamentos e das pessoas com quem me dava. Primeiro, porque no quinto ano integrei, pela primeira vez, uma turma mista. E isso para mim foi uma espécie de descoberta da outra metade do mundo… Além disso, nessa escola encontravam-se todas as pessoas do concelho de Águeda. Depois porque se viviam os tempos pós revolução, com todas as mudanças que isso implicava, mesmo ao nível da gestão da escola. Imagine que fiz parte do conselho disciplinar da escola, mas ao mesmo tempo era um dos seus melhores clientes, porque tive vários processos disciplinares. Naquela altura, estava a experimentar-se tudo e vivi intensamente essas transformações, ao mesmo tempo que fui amadurecendo, fui-me tornando um adolescente e gerando novas curiosidades e vontades e isso culminou com a grande loucura da organização dos bailes e viagens de finalistas que, na altura, tinham uma importância muito diferente do que têm hoje em dia. A viagem de finalistas para muita gente era a primeira oportunidade de ir ao Algarve.
A escola para mim foi sempre muito importante, sempre tive muita vontade de aprender. É engraçado que eu era conhecido por ser muito indisciplinado, sempre ligado a tropelias, mas era exatamente o contrário dentro da sala de aula. E guardo como memória do tempo da escola de Águeda alguns professores que me influenciaram como pessoa, como engenheiro, como homem que dedica a sua vida profissional à inovação e investigação e desenvolvimento.

“SEMPRE QUIS TRABALHAR NA FERRUGEM E NO ÓLEO”

P> Pode falar-nos um pouco do que tem feito profissionalmente ao longo dos últimos anos?
R> Sempre quis ser engenheiro mecânico e sempre quis trabalhar na ferrugem e no óleo. Ainda antes de concluir a licenciatura fui convidado para dar aulas na universidade, onde acabei por ficar sete anos, mas sempre tive a ambição de trabalhar na indústria, e acabei por ir parar inicialmente ao setor automóvel. Durante três anos, acumulei esse trabalho com a minha atividade profissional na universidade. Depois fui convidado para ajudar a criar um centro de investigação, pertença da universidade e da Associação Industrial de Braga, e acabei por mudar completamente o meu rumo profissional, com essa incursão no mundo novo, da investigação, desenvolvimento e inovação. Permaneci nesse instituto durante oito anos. Entretanto, o sentimento de obra feita empurrou-me para outros desafios. Abandonei esse centro de investigação ligado às novas tecnologias e aceitei o convite para liderar um centro de investigação nas áreas velhas, neste caso no setor têxtil e vestuário. Alguns amigos disseram-me que estava completamente louco… mas a verdade é que fui com a convicção de que qualquer área de aplicação pode ser inovadora. E, em boa hora, aceitei o desafio de assumir a direção geral do CITEVE – Centro Tecnológico Têxtil e Vestuário em 2000. Três anos depois, a minha insatisfação era grande relativamente às áreas do futuro e lancei o instituto CeNTI – Centro de Nanotecnologia e Materiais Funcionais e Inteligentes. Pelo meio, fui emprestado ao conselho de administração do IAPMEI. Mas o mundo da política nunca me atraiu e, ao fim de quatro anos, voltei às minhas funções no CITEVE e no CeNTI, tendo passado entretanto por iniciativas como o centro de engenharia para a área automóvel e aeronáutica e um conjunto de outras pequenas iniciativas, pequenas ou grandes, mas com pequenas participações minhas, sempre na área da investigação, desenvolvimento e inovação com foco na indústria.

ISABEL GOMES MOREIRA
(entrevista completa na edição da semana de 22 de janeiro de 2020 – versões e-paper e impressa)
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