As novas escolas primárias , por José Manuel Alho (*)

José Manuel Alho

Em muitas escolas recentemente construídas começa a vislumbrar-se um vasto conjunto de questões que o tempo – afinal, o juiz supremo de todas as coisas – se encarregou de desnudar.

É do conhecimento geral que, no início da década de 1990, grande parte das escolas primárias foi convertida em escolas básicas do 1º Ciclo. Por isso, muitas das antigas escolas foram desativadas, concentrando-se posteriormente os seus alunos em centros escolares, edificados em lugares com maior densidade populacional. Até então, as escolas primárias eram escolas de proximidade, distribuídas por todos os bairros urbanos e aldeias rurais porque o Estado Novo lançara o Plano dos Centenários (PdC), um programa de construção escolar em massa, que tinha como objetivo permitir a todas as crianças portuguesas dispor de uma escola ao seu alcance, viabilizando o aumento do nível de educação da população. As escolas do PdC foram construídas segundo modelos tipificados, adaptados às condições locais, que aliavam a funcionalidade à arquitetura tradicional portuguesa.
Com a indomável passagem do tempo – que, ao arrepio de todos os estudos e publicações de organizações internacionais de educação como a UNESCO, logrou até (mas somente) em Portugal transformar a “escola primária” em “escola básica”! – as Câmaras Municipais receberam a incumbência de construírem os novos centros educativos. E em boa hora. É que os novos equipamentos estão MUITO melhor adaptados para atender às necessidades e interesses das crianças. Mas há exceções, se calhar, (bem) perto de si.

Prioridade à sensibilidade

Cumpre ter a sensibilidade de perceber que, para a boa prossecução do processo de ensino e aprendizagem, é crucial assegurar uma plena harmonia entre duas componentes que não podem, em circunstância alguma, conflituar: a arquitetura e a pedagogia.
Por exemplo, a construção de novas unidades de ensino deve ser projetada de forma a possibilitar um fluxo ordenado e sem cruzamentos em todos os espaços e momentos de atividade humana bem como a facilitar as operações de manutenção, limpeza e, quando for o caso, de desinfeção. O acesso às instalações deve ser controlado e independente, NÃO comum a outros usos, evitando pavimentos facilitadores de acidentes como pisos polidos, com insustentável proliferação de degraus. De igual modo, a construção de qualquer prédio escolar deve inviabilizar a mais ténue interferência acústica que desconcentre os alunos. A escorreita propagação do ruído numa escola/pavilhão é a origem do distúrbio do sono, da perturbação do descanso, interferindo na comunicação oral, causando perturbações de concentração, perda de eficiência no trabalho, stress e de sérios danos auditivos. As salas de aula devem ser amplas, com janelas basculantes e não de outro tipo que potencie acidentes usualmente mortais. As mesas e cadeiras deverão ser próprias para o ensino de crianças. Os móveis devem ser escolhidos de forma a propiciar uma profícua interação professor-aluno. Cumulativamente, não é mais aceitável que, num estabelecimento edificado de raiz, não existam espaços polivalentes cobertos em dimensão e quantidade suficientes para, em tempo de intervalo ou de pausa para o almoço, acomodar os petizes, evitando o seu enlatamento em corredores avessos aos mais elementares princípios da educação infantil, porque não permitem às crianças desenvolver a psicomotricidade (correr, pular, exercitar-se…), participar de jogos ativos e estabelecer um maior contacto com os pares. Ademais, como será ainda possível descobrir escolas onde as crianças estão rodeadas por sumptuosas rampas ou, imagine-se, achar unidades de ensino onde menores de 5/6 anos de idade têm, sejam dias de estio ou de invernia, percorrer longos metros desde a portaria até à sua sala, “sabiamente” localizada num extremo cruelmente oposto?!
É imperioso que a construção dos (novos) equipamentos escolares leve em conta a mutabilidade, tão natural nos empreendimentos humanos. Mais do que nunca, urge tomar em consideração os novos métodos e acompanhar as exigências dos dias atuais. Os fatores externos atrás expostos podem contribuir ou retardar o processo de ensino-aprendizagem, dependendo da natureza de cada elemento. Aceite-se essa inevitabilidade.
Corrigir e melhorar a realidade física da Escola é muito importante para a construção da identidade pessoal da criança e para a tornar competente, autónoma e genuinamente assertiva. Uma escola a carente de recursos e de infraestruturas, onde tanto a criança quanto o adulto veem somente paredes e espaços vagos, é um ambiente sem vida, que não propõe desafios cognitivos à criança e não amplia o conhecimento.
Em conclusão, as famílias esperam que os decisores autárquicos – mau grado a maior ou a menor sensibilidade dos dirigentes escolares para os assuntos da Infância – ousem honrar os seus deveres e atribuições em áreas tão decisivas como a Educação. Enfim, clama-se por aquele arrojo de quem toma a dianteira, sem esperar que as circunstâncias (n)os obriguem a fazer atamancadamente o que podia ter sido feito em tempo e com menor impacto financeiro. Haja inteligência.

(*) JOSÉ MANUEL ALHO
professor

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