“As tecnologias não são a causa isolada da crescente redução das experiências ao ar livre”

Gabriela Bento e Gisela Dias

A importância de brincar ao ar livre na infância é o tema da entrevista de Gisela Dias e Gabriela Bento ao Região de Águeda. São, juntamente com Helen Bilton, autoras do livro “Taking the First Steps Outside”, que foi lançado no sábado, dia 19, na Fundação Dionísio Pinheiro e Alice Cardoso, em Águeda. “As tecnologias não são a causa isolada da crescente redução das experiências ao ar livre”, dizem.

P> Porque é que é importante brincar ao ar livre na infância?
R> Uma das grandes mais valias do brincar ao ar livre durante a infância está relacionada com a possibilidade de mobilizar o corpo e os sentidos no processo de exploração e aprendizagem. As crianças compreendem melhor aquilo que as rodeia se tiverem a possibilidade de mexer, cheirar, ver, sentir, ouvir, etc., atribuindo assim um sentido crescente ao mundo. Seguindo os seus interesses e tirando proveito da sua motivação natural para aprender, a criança tem a possibilidade de “experienciar” conceitos de ciências, biologia ou matemática, enquanto brinca no espaço exterior. Brincar ao ar livre também contribui para o desenvolvimento de competências de autonomia, resolução de problemas, cooperação e gestão do risco. Noutra perspetiva, as experiências de brincar no espaço exterior também são importantes para a aquisição de comportamentos ecológicos, permitindo o desenvolvimento de uma relação de afeto com o espaço, facilitador de atitude de proteção e respeito.

“ATIVIDADES NÃO SUBSTITUEM OS BENEFÍCIOS DO BRINCAR LIVRE”

P> Andamos a educar mal os nossos filhos?
R> Todos procuramos dar o melhor às nossas crianças. Isso é inquestionável. No entanto, o nosso ritmo de vida, as prioridades e as preocupações alteraram-se bastante nas últimas décadas, afetando o tipo de experiências a que as crianças têm acesso. Brincar na rua, com os amigos, é algo que está praticamente extinto dos meios urbanos e rurais.

P> Quais as razões?
R> Existe uma preocupação muito grande com os perigos a que as crianças podem estar sujeitas e, esse clima de medo, aprisiona progressivamente os mais novos em ambientes fechados, estruturados e controlados pelos adultos. Queremos que as nossas crianças estejam bem preparadas para o futuro e, por isso, preenchemos os seus horários com atividades variadas (inglês, ballet, dança, catequese), que apesar de muito importantes, tiram tempo e não substituem os benefícios do brincar livre e espontâneo. Existe uma perceção geral de que antigamente as crianças brincavam mais e de hoje passam muito tempo “ligadas” a meios de entretenimento digital, no entanto, existe pouco questionamento em relação ao porquê desta dependência. As tecnologias não são a causa isolada da crescente redução das experiências ao ar livre… Que alternativas são criadas para promover o brincar no exterior? De que forma é que as nossas cidades, vilas e aldeias planeiam, escutam e incluem os interesses das crianças nos seus espaços?

P> O que defendem então?
R> Se as crianças já não têm a possibilidade de brincar na rua, nos parques ou nos quintais dos avós, como tinham há alguns anos atrás, então é necessário que a escola providencie esse tipo de experiências, tirando proveito das potencialidades pedagógicas do brincar no exterior.
A nossa educação de infância ainda está muito centrada naquilo que acontece dentro da sala, considerando-se que o tempo passado no exterior serve apenas como “intervalo” entre momentos de aprendizagem, controlados pelo adulto.

”NÃO EXISTEM RECEITAS OU FÓRMULAS MÁGICAS”

P> Como podem os pais orientar-se e saber que estão a fazer a melhor escolha?
R> Não existem receitas ou fórmulas mágicas no que se refere à educação de crianças. Sabemos que todas as crianças são diferentes e que aquilo que serve a uma pode não se adequar a outra. O mais importante será garantir que as crianças crescem em ambientes respeitadores, que têm em conta os seus interesses e as suas competências. Os contextos educativos que valorizam as experiências das crianças e que reconhecem o papel ativo que estas desempenham no processo de aprendizagem, à partida, serão creches, jardins de infância ou escolas de qualidade. Importa não subestimar as crianças, conhecê-las e apoiá-las no processo de descoberta do mundo, para que se possam tornar cada vez mais autónomas e capazes para lidar com os desafios futuros.

SOBRE AS AUTORAS
Gisela Dias é de Aguada de Baixo, é licenciada em educação de infância e tem vasta experiência em creche. Gabriela Bento é psicóloga da educação, a realizar doutoramento sobre esta área específica da educação na Universidade de Aveiro. Helen Bilton é educadora e investigadora na Universidade de Reading (UK) com vários livros editados sobre este assunto.

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