“Atual executivo municipal vai ter de dar resposta a muitos interesses e promessas” – José Vidal (PS)

José Vidal

Crítico por natureza, assume a coerência como um dos principais traços que caracteriza a sua ação política. José Vidal volta a assumir a presidência do PS de Águeda, numa altura em que o partido perdeu a Câmara e a Assembleia Municipal e conseguiu apenas manter uma Junta de Freguesia. Em entrevista ao RA, diz que do atual executivo municipal “não espera grandes mudanças” e critica a acumulação de funções e a recondução de políticos ao fim de 12 anos na autarquia. “Vão ter que responder a muitos interesses que os apoiaram, a muitas promessas que fizeram”, afirma sobre o novo executivo camarário. Mas José Vidal anuncia, ainda, que o PS vai interpor uma ação no tribunal por causa das “irregularidades e ilegalidades que se têm verificado” nas Assembleias de Freguesia de Travassô e Óis da Ribeira

P> O seu discurso aquando das eleições para a concelhia centrou-se muito na ética e transparência… Falta ética na vida politica aguedense? O recado tinha destinatários?
R> Não… anda a faltar ética na vida política em geral. No país e também em Águeda, que faz parte do país. As pessoas movem-se por interesses. Todos eles legítimos certamente. Ter ambição de poder, defender um interesse, tudo isso é legítimo até ao momento em que não se considera as outras pessoas. Falta ética em todos os lugares em que há acesso ao poder.

P> Mas o recado tinha um destinatário concreto?
R> É para as pessoas que concorrem a lugares, sejam da minha lista ou de outra. Não abdico do princípio da ética em política. Posso até estar errado, posso até cometer alguns deslizes, mas o princípio tem de estar subjacente à tomada de decisões. Não podemos fazer “tábua rasa” dos princípios só porque aparece uma oportunidade.

P> O que o levou a avançar novamente com uma candidatura à concelhia?
R> Comecei a falar de política em 1972 ou 1973, quando fui parar a um liceu onde se falava muito de política e onde havia greves. Fui presidente da concelhia de Águeda, mas também fui presidente da concelhia do Alentejo, onde ninguém me conhecia e, ao fim de três anos, fui eleito para o cargo. Pertenci a secretariados e comissões distritais fora de Aveiro e isso dá-nos uma visão completamente diferente e abrangente da política.

P> Mas o que é que o levou a candidatar-se agora numa altura em que o PS perdeu a câmara, a assembleia municipal, juntas de freguesia importantes…?
R> Mais uma vez a luta pela defesa de princípios… Defendi princípios como a não acumulação de funções ou a recondução de pessoas ao fim de 12 anos no cargo e expliquei porquê.

“SOU CONTRA A ACUMULAÇÃO DE CARGOS”

P> Está a falar dos vereadores do Juntos…
R> Dos vereadores e de Carla Tavares que é deputada à Assembleia da República e concorreu à Assembleia Municipal… Sou contra a acumulação de cargos. Repare, viemos de um processo duro, que foram as eleições, com clivagens fortes, dentro de um partido que estava no poder há 12 anos com essas mesmas pessoas. E quando há zangas internas é muito pior, provoca feridas e temos que ter a consciência e a noção disso.

P> São feridas irreparáveis, na sua opinião?
R> Nos meios pequenos e na política local, as sensibilidades são diferentes. As pessoas não distinguem entre as amizades e as questões políticas de fundo. Às vezes, as questões políticas implicam questões de carácter ou tomada de decisões erradas, mas isso é a discussão de âmbito político. Acredito em princípios e respeito todas as pessoas que saíram do Partido Socialista. Foi a sua opção. Mas acredito que para os malabaristas da política, aqueles que só pensam no poder, para eles já passou tudo. Aos malabaristas da política só interessa mesmo o poder e os resultados.

“UMA CANDIDATURA DE INTERESSES”

P> Foi uma candidatura de interesses a do Juntos?
R> Sim… o primeiro interesse é manter o poder, o segundo é manter um emprego bem pago e o terceiro é proteger os interesses dos outros. Todos interesses legítimos, mas falta a ideologia e os princípios. Só existe aquele princípio base, que é o que todos dizem, que achámos que era o melhor para servir os interesses do povo. Mas o povo para eles são os interesses daqueles que eles conhecem, dos amigos. O que também é legítimo. Mas não deveria ser assim. Governar uma câmara municipal é assumir opções ideológicas. Decidir se se apoia mais ou não o setor social ou se temos ou não intervenção na educação, por exemplo.

P> Passado este tempo sobre o processo da escolha do candidato do PS à câmara, encontra culpados? Haveria outro desfecho possível?
R> Os desfechos estiveram sempre todos em aberto. Estive um pouco desligado por questões internas do partido, mas a verdade é esta: não há culpados, as coisas são o que são! Houve opções, houve erros, pelo menos no meu entendimento, mas as outras pessoas até podem achar que atuaram bem… Houve pessoas que jogaram só no silêncio, nos telefonemas, no diz que disse… e há outros, como eu, que não encaram a politica assim.

P> “Não é possível avançar-se, neste novo ciclo, sem assumir o que não correu bem e refletir seriamente sobre as causas”. O que é que não correu bem, na sua opinião?
R> Dentro do partido acho que não se fez cabalmente essa reflexão e a partir de certa altura perde-se o tempo para a fazer. Cada um fez à sua maneira. Houve já algumas reuniões da comissão política, houve um ato eleitoral, que também clarificou posições, mas acho que o futuro é mais importante. O que correu mal muita gente não saberá.

“FALHOU O DEBATE INTERNO E DEMOCRÁTICO”

P> Na sua opinião, o que correu mal?
R> O que correu mal foi a falta de debate interno e democrático dentro do Partido Socialista. Algumas regras e princípios que alguns defendiam há vários anos não foram, quanto a mim, respeitadas. E isso levou a algum descalabro, não eleitoral, porque as eleições são assim, ganha-se e perde-se, mas costumo dizer que só se deve fazer batota quando a democracia estiver em perigo.

P> E o que é que levou ao descalabro eleitoral?
R> Erros próprios, erros na decisão de candidaturas, depois após candidatura erros na própria candidatura.

P> Apoiou Paulo Seara…
R> Apoiei porque foi eleito num processo democrático. Expliquei-o no jornal. Fui aliás a única pessoa que divulgou a sua opção e explicou o porquê e ninguém rebateu. Também falei do que se passou e ninguém negou que tenha sido assim e isso para mim basta-me. Só que não teve os efeitos que devia ter. Houve princípios no âmbito da participação e da escolha de candidaturas…

“NUNCA UMA LISTA DO PS GANHARIA ESTAS ELEIÇÕES!”

P> Está a dizer que Paulo Seara não foi o melhor candidato?
R> Não… Paulo Seara foi o candidato escolhido. Não há melhores candidatos que não sejam candidatos. O melhor candidato é o candidato que é escolhido. O problema é que após a indicação de Paulo Seara houve movimentos internos no PS que, quanto a mim, não contribuíram para a escolha de um executivo capaz, nem a manutenção de uma linha coerente de atuação, não permitiram que também depois isso se refletisse na campanha. Agora temos que ter a consciência das coisas: nunca uma lista do PS ganharia estas eleições! Acusam-me de ter dito isto antes das eleições, mas é uma questão de experiência.

P> Por causa da lista independente?
R> Sim, por causa do contexto e daquilo a que as pessoas dão importância. Se eu não der importância a princípios e à ética, dou importância apenas ao resultado… Pensa-se há mais estradas, as pessoas são simpáticas, até me podem fazer um favor, porque eu até as conheço… e se do outro lado está um candidato que se afirma contra os interesses não se vai apoiar… Está é a lógica, que tem a ver com o grau cultural de um povo e de uma sociedade. Nada disto seria possível passar-se nos países nórdicos. Muitas destas pessoas não seriam candidatos, nem se atreveriam a ser nem ninguém os aceitaria.

ISABEL GOMES MOREIRA
(entrevista completa na edição da semana de 21 de fevereiro de 2018 – versões e-paper e impressa)
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