Cercados pelo fogo em Águeda: “A história contada neste livro não é conhecida de muita gente”

Bombeiros

“Cercados pelo fogo em Águeda” relata o incêndio da noite de 14 de junho de 1986 que teve mão criminosa, no qual perderam a vida 16 pessoas – 13 bombeiros de Águeda e de Anadia e três civis – em Castanheira do Vouga. Domingos Xavier Viegas, professor catedrático da Universidade de Coimbra e especialista em incêndios florestais, reconstituiu esta tragédia. Ouviu sobreviventes, visitou os locais e reconstitui momentos. Em entrevista ao RA fala do seu trabalho de investigação, apresetado esta segunda-feira. O livro está disponível para venda (a edição é da própria equipa de investigação) mediante pedido ao Departamento de Engenharia Mecânica da Faculdade de Ciências e Tecnologia, sendo enviado
pelo Correio

P> Qual foi a razão de ter feito este trabalho?
R> Não tenho nenhuma relação direta e pessoal com Águeda. O que me levou a escrever este livro foi o acidente. Tive conhecimento logo que ocorreu e fui pessoalmente ao local logo no dia seguinte. Devo confessar que não comecei logo a investigar o acidente porque estava nessa altura a começar a minha investigação e não tínhamos ainda conhecimento nem ideias sobre como abordar o assunto. Só passados uns anos é que comecei a investigar este acidente.

TENTAR EXPLICAR O QUE SE PASSOU
P> Porquê Águeda?
R> Bem, como qualquer outro sítio onde tem ocorrido acidentes e mortes por causa dos incêndios. Como sabe, este é o quarto livro que estou a publicar. O primeiro que publiquei foi sobre os acidentes que ocorreram em Portugal no ano de 2003 – andei pelo país todo, onde se verificaram estes acidentes, para os estudar, investigar e descrever -, em 2005 outro tanto, depois debrucei-me sobre o acidente de Armamar, verificado em 1985, que tinha sido o que me motivara a começar a investigar os incêndios florestais. Isto deu-me alguns anos, e só quando acabei esse livro é que me dediquei a estudar o de Águeda.

P> O que pretende com a realização destas obras?
R> Tentar perceber aquilo que se passou. As pessoas estão a lutar contra um momento que é muito forte, que é o fogo, e há um confronto entre o comportamento do homem e o comportamento do fogo. E nós procuramos perceber qual é o comportamento do fogo em função exatamente da segurança das pessoas. Tentar perceber em que condições é que o fogo pode causar a perda de segurança, neste caso a perda de vidas. Isso resulta de fatores que não conhecemos de como o fogo se comporta. Às vezes as pessoas têm atitudes, ou tomam decisões, que mostram pouco conhecimento. O que é que as pessoas fizeram, que decisões tomaram, o que é que pretendiam fazer, em que circunstâncias é que foram detidas, que perceção é que tinham do incêndio e até que ponto é que aquilo que aconteceu naquela história pode trazer lições para se aprender para o futuro. Tentar explicar às pessoas, nomeadamente aos bombeiros e sobretudo à população, o que o fogo faz em determinadas situações, evitando-se comportamentos de risco.

RELATÓRIOS OFICIAIS INCOMPLETOS E COM ERROS
P> A sua investigação durou 10 anos e ouviu várias pessoas. Houve recetividade? E quais foram as principais dificuldades?
R> Tive sempre a máxima recetividade. Por parte das pessoas, das entidades… As maiores dificuldades que encontrei foi precisamente o fato de algumas dessas entidades não guardarem um registo histórico. Por qualquer razão, neste tipo de casos, não se acautela o devido sentido histórico, guardando registo de quem esteve, de quem não esteve, dados fotográficos… Ou se há, não estão acessíveis, ou muito bem organizados. Depois, verifiquei que as próprias autoridades públicas, que deviam estudar e minimizar este tipo de circunstâncias, e tirar as devidas ilações, também não fizeram o trabalho devidamente. Constato neste livro, como já tinha feito no livro de Armamar, que os relatórios oficiais que há sobre o acidente são muito escassos, muito incompletos, contêm erros, etc.

P> O que conseguiu, então?
R> Com o tempo que passou – 20, 30 anos – houve pessoas que já desapareceram, outras que já não têm uma boa perceção do que se passou, mas apesar de tudo, neste acidente de Águeda, julgo que consegui reconstituir bastante bem aquilo que se passou. Devo dizer que a história contada neste livro não é conhecida de muita gente. Os próprios bombeiros das corporações que foram atingidas não sabem muito daquilo que se passou. Dos mais velhos aos mais novos. Ou têm conhecimento de coisas erradas. Falando com alguns, até com dirigentes, os bombeiros contam versões que não são corretas. O esforço que fiz neste livro de juntar o testemunho de várias pessoas – alguns contraditórios, sendo necessário ver qual era a verdade mais aproximada – conta rigorosamente o que foi.

“GRUPO DO RIO” REUNIDO
P> E destaca algum relato em particular?
R> Há várias coisas importantes nesta história. Como digo no livro, há três grupos de elementos que participaram neste acidente, ou que sofreram com o acidente. O grupo de bombeiros de Águeda – infelizmente aqueles que estiveram no local do acidente perderam todos a vida… foram 9! Desses não houve sobreviventes, não havendo alguém para contar em primeira mão o que se passou. Depois, temos o grupo de Anadia, que felizmente teve oito sobreviventes: tive oportunidade de falar com todos eles e desse grupo aquele que eu destaco foi o grupo que fugiu para o rio – sete bombeiros e um civil – com quem tive oportunidade de estar…

P> E como encontrou, ao fim destes anos, todas essas pessoas?
R> Foi muito graças ao apoio dos Bombeiros de Águeda e de Anadia. Foram incansáveis! O caso dos sobreviventes do que eu chamo “o grupo do rio” foi para mim uma experiência muito interessante. Comecei por conhecer este senhor José Luís, o civil de Águeda… a pessoa que foi responsável, digamos, por levar os bombeiros para baixo, para o rio. Tive oportunidade de os reunir todos, de estarmos em conjunto. Alguns meses depois, com um grupo de bombeiros de Águeda, reconstituímos o percurso que foi feito por aqueles homens naquela noite… o terreno, o tempo, as distâncias, etc. Foi muito gratificante encontrar cada um destes homens, ouvir a sua história.

P> E qual é o terceiro grupo?
R> O grupo dos civis… as pessoas que iam em socorro e que, por uma razão ou por outra, foram apanhadas pelo fogo. Três deles perderam a vida; mas tive a oportunidade de falar com várias pessoas, alguns habitantes das aldeias do Avelal, e gostava de destacar o nome do senhor Luís Cruz, que foi incansável em me abrir portas para obter esclarecimentos e explicações. Viveu diretamente; embora fosse um rapazito na época lembrava-se muito bem dos acontecimentos.

FAMILIARES MUITO MARCADOS
P> Encontrou as pessoas ainda muito marcadas?
R> Naturalmente. Sobretudo as famílias, um quarto grupo que gostaria de destacar. Familiares das vítimas. Falei com os familiares de quase todas as pessoas que perderam a vida e naturalmente estão muito marcadas pelo acidente. Foram famílias destroçadas e nalguns casos nota-se bem a consequência que estas perdas deixaram na vida das pessoas.

P> O esforço deste trabalho vai valer a pena para se agir de outro modo?
R> Espero que sim. Tem sido esse o meu propósito. Vão no sentido de que quem os lê perceba que estes incêndios, que têm sido causados, podem ter este tipo de consequências. Se isso ajudar a desmotivar alguém… Por outro lado, se ajudar alguém a defender melhor a sua vida e a adotar melhores comportamentos nessas situações, será um esforço frutuoso.

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