Cheias@Águeda.pt , por Alberto Marques (*)

Alberto Marques (PSD)

- “A Loja era onde tudo se sabia. Ficava quase em frente do Jardim Novo, no começo da Rua d’Os Lusíadas, mais conhecida por Rua Seca, por oposição à Rua da Cheia, que lhe era paralela, mais abaixo.”
– “A casa (…) fica na parte baixa da vila, quase junto ao rio Alma, na Rua Bartolomeu Dias, mais conhecida por Rua da Cheia, talvez porque no Inverno, sempre que havia grandes chuvas, parecia um afluente do rio, que entrava pela casa dentro, alagando a adega, o jardim, a arrecadação da lenha (a que nós chamávamos casa da lenha) e os primeiros degraus das escadas, os da principal e os da cozinha. Era preciso andar de barco pela rua, quase rio, (…) a minha irmã e eu púnhamo-nos à varanda a ver as estranhas coisas e os animais que vinham na enxurrada: árvores, cadeiras, colchões, berços, laranjas, muitas laranjas, porcos, galinhas, às vezes vacas e cavalos. Depois da cheia a rua ficava entupida de lama, detritos, restos.”
(in Alma, Manuel Alegre)

A realidade do Século XXI já pouco ou nada tem a ver com a apaixonante descrição das cheias na cidade de Alma, no livro homónimo de Manuel Alegre. Aliás, nas últimas décadas, salvo as duas grandes cheias de 1995 e 2001, contar-se-ão pelos dedos os efeitos realmente graves das cheias do Rio Águeda, pelo menos no que à margem direita diz respeito. (Já os casos do Sardão e Além da Ponte, merecem redobrada e urgente atenção)

Muito se tem dito e escrito nos últimos dias a propósito da subida das águas nos primeiros dias de 2016, dando azo a infindáveis interpretações e outros tantos certificados de culpabilidade. Muitas teorias, imensas explicações, certezas absolutas, estudos técnicos, dados hidrográficos, tratados de geologia, meros palpites e, inevitavelmente, soluções para todos os gostos. Não me aventurarei por esse colossal caudal de opiniões, tanto mais porque não possuo conhecimentos técnicos para tal. O que vejo, deduzo e concluo, faço-o apenas suportado no conhecimento empírico de quem não percebe nada de “hectolitros por segundo”, “secções de vazante”, etc, etc, etc…

Aquilo que está à vista de todos é que uma parte considerável da baixa da cidade (em ambas as margens) foi edificada em pleno leito natural de cheias, não havendo muito a fazer – pelo menos nesta zona – quando a chuva é muita e persistente, tanto aqui como na Serra do Caramulo. Já a montante e a jusante, muitas soluções têm sido apontadas, umas já executadas, outras à espera da oportunidade certa.

O que me levou a partilhar com os leitores estas breves palavras sobre as cheias em Águeda foi a cada vez mais recorrente associação deste tema a questões de política local, colando a cada opinião um rótulo de “ataque político” e lendo segundos sentidos em quaisquer declarações sobre o assunto.

Foram muitos anos a ouvir constantes ataques aos sucessivos autarcas do PSD, porque foram uns irresponsáveis, uns ”bárbaros”, uns criminosos, ao permitirem algumas edificações na baixa da cidade (Bombeiros, mercado, CCAM, etc…), como se a evolução natural da cidade não passasse (também) por ali. Por essa ordem de ideias, as ruas “Seca” e “da Cheia” descritas em Alma nunca deveriam ter existido…

Agora, virou-se o feitiço contra o feiticeiro, e os actuais autarcas socialistas vêem-se afogados num rol de críticas ao já famoso canal “bypass” ao Rio Águeda, porque este, afinal, não veio resolver coisa nenhuma… Longe de mim constituir-me defensor do executivo municipal, mas a verdade é que ninguém no seu perfeito juízo poderia assumir que uma obra com estas características fosse condição suficiente para resolver o problema das cheias. Se a existência do canal pode aliviar momentaneamente os caudais na zona das pontes, a verdade é que, chovendo a sério a cheia passa por cima de tudo, tornando o “bypass” perfeitamente inócuo.

Mas há um aspecto em que a “vox populi” tem razão: um dos argumentos repetidamente utilizados pelo executivo para justificar a obra do “bypass” foi, precisamente, o “enorme e decisivo contributo do canal para minimizar os efeitos das cheias”. Agora, os responsáveis municipais ficam todos afobados e ofendidos se alguém fala sobre as cheias.ois, é a vida. Gostam de navegar na crista da onda? Aprendam a nadar, yo…

(*) Colaborador do Região de Águeda
Autores

Notícias Relacionadas

*

Top