De volta à escola aos 87 anos

Alfredo Costa, aos 87 anos, frequenta o Centro de Novas Oportunidades de Águeda. O RA colocou-lhe cinco questões e encontrou uma pessoa com uma fascinante história de vida.

P> O que é que o motivou a voltar a estudar aos 87 anos de idade?

R> O conhecimento e a investigação sempre me fascinaram. Estive em Angola cerca de 30 anos, lá tirei o 12º, mas não me dei por satisfeito. Trabalhava numa empresa ligada à engenharia civil e o meu patrão, que sabia que eu gostava muito de geologia, incentivou-me a tirar um curso de geologia dirigida a minas. Entrei no Instituto Tecnológico de Angola, onde estudei durante dois anos e meio. Trabalhava de dia e estudava à noite, mas acabei por não aguentar esse ritmo e desisti. Dediquei-me à investigação em Angola. Em 1975 regressei a Portugal, a Macinhata do Vouga, onde resido. Em Agosto desse ano tive que ir a Angola para trazer um carro que tinha comprado e aproveitei a ocasião para ir ao Instituto pedir um certificado do tempo que estudei lá. A independência de Angola dar-se-ia três dias depois de vir embora, quando lá cheguei todos os professores europeus se tinham ido embora porque estava previsto um “assalto” das tropas de oposição. Fiquei sem nada. Em função disso, resolvi agarrar agora esta oportunidade.

 

P> Como descreve a experiência deste regresso à escola?

R> Foi óptima. Concluí o nono ano, mas não vou continuar, porque sei que vou aprender coisas que não me vão ser muito úteis nesta fase. A minha memória já não me permite aprender certas disciplinas, como o Inglês. Tenho a imaginação no topo e a memória de rastos…

 

P> O que é que ganhou com esta experiência?

R> Além do que aprendi, o convívio. Gostava de dar parabéns a toda a equipa da Marques Castilho por esta bela iniciativa. Do que vi da Marques Castilho é a fina flor das escolas do concelho de Águeda. Por esse facto os meus parabéns.

 

P> Como ocupa os seus dias?

R> Leio jornais e consulto livros técnicos. Leio em média 90 jornais por mês e não prescindo do meu café diário para me manter em forma. Além disso, dedico-me à escrita. Estou a terminar o meu quarto livro. Tenho uma casa e uma família que me ocupam o tempo. Tenho sempre coisas para fazer e tenho uma horta para fazer investigação.

Sou membro da Associação Portuguesa de Criatividade e já recebi vários prémios. Desenvolvi cerca de 40 inventos, entre eles, um sistema de produção de energia eléctrica, que não tem limitações naturais e pode ser montado em qualquer local do planeta. A minha vela de ignição de automóveis para evitar encharcamento dos carros recebeu uma medalha de prata dourada no salão internacional de inventores, em Bruxelas. Um outro invento que vi premiado no mesmo local foi a plataforma que desenvolvi para piso de aviões quando o tren está avariado.

Neste momento, estou a criar uma casa flutuante antisismica que pode baixar no local onde está até o teto ficar ao nível do terreno.

 

P> Aconselharia esta experiência?

R> Sim, sem dúvida. É bom aprender, mantermo-nos ocupados e desenvolver o raciocínio.

Lembro-me de na escola primária a professora nos levar para os campos apanhar flores silvestres. Não queria nenhuma repetida e entrávamos em competição para ver quem ganhava. Levava-nos às pinhas, a apanhar carochas… mas o certo é que levava os  alunos a exame e ficávamos todos bem. Tenho pena que os alunos tenham deixado de ir para os campos… Dentro de cada um de nós há uma costela de investigador. É muito saturante estar muito tempo dentro de uma aula. A liberdade dá muito mais incentivo aos alunos para estudarem. Não há pássaro e planta que eu não conheça…

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