Degradação e abandono “convidam” a não utilizar a Linha do Vouga

Estação de Macinhata do Vouga, na linha do Vouga

A comissão de utentes da Linha do Vouga lançou, no sábado, no apeadeiro da Aguieira, uma petição pela requalificação e modernização da linha do Vale do Vouga, que pode também ser subscrita on line. Vitor Januário, porta-voz da comissão, em entrevista ao Região de Águeda, explica que, com a iniciativa, se “pretende que a Assembleia da República e o Governo assumam um vínculo de defesa da qualidade de vida das povoações abrangidas pela linha do Vale do Vouga”

P> Por que razão a comissão escolheu este momento para lançar a petição?
R> Os utentes da linha do Vouga têm realizado, sobretudo na última década, diversas iniciativas que visam exigir a melhoria da prestação do serviço público de transporte ferroviário. Deste modo, a petição que agora começa a ser subscrita prossegue esse empenho, que é reforçado quando se sabe que, numa lógica de mercado, no programa nacional de investimento, se ignoram as necessidades de um vasto território habitado por pessoas que foram perdendo serviços públicos de saúde, educação e entrega postal, de tal modo que a desertificação territorial vai ferindo o bem-estar, com a degradação de cuidados básicos, preservação patrimonial e produção económica.

P> O que é que pretendem com a petição, quais são as reivindicações?
R> Pretendemos que a Assembleia da República e o Governo assumam um vínculo de defesa da qualidade de vida das povoações abrangidas pela linha do Vale do Vouga, cujo troço a sul ficou depauperado e a extensão pelo interior foi desativada, trazendo inevitáveis problemas de mobilidade e de acesso às valências que o Estado deveria garantir, por exemplo, na saúde, obrigando a que, nalguns casos se tenha de recorrer ao táxi ou à vizinhança mais disponível, para as deslocações em veículo privado. Não julgamos que o investimento na via ferroviária deva apenas estar sujeito ao princípio do interesse económico para a região, mas também e prioritariamente ao de servir as pessoas, que precisam dela, mas que não a podem utilizar como desejariam.

“MANUTENÇÃO ESTÁ LONGE DE SER A ADEQUADA”

P> Entende que o atual estado da linha afasta as pessoas e que com um grande investimento voltariam a utilizar o comboio?
R> Hoje, contrariamente ao que se declara pela IP (Infraestruturas de Portugal), a manutenção está longe de ser a adequada e a resposta às expectativas dos utilizadores parece ter sido ignorada. Repare-se que a degradação do material circulante e o abandono de equipamentos e estruturas (nalguns casos, com emparedamentos) são fatores dissuasores do uso, uma espécie de mau cartão de visita, convidando a não circular. Esta constatação de haver estações sem sanitários, sem bilheteiras e sem avisos sonoros ou paragens-apeadeiros sem resguardo, bem como em ambos os casos com maus acessos, situando-se em locais isolados e com fraca iluminação ou sem ela, só pode gerar indignação, pois a necessidade de recorrer ao transporte público mantém-se, constituindo, aliás, um direito constitucional.

P> A comissão defende o restabelecimento da ligação entre a Sernada e Oliveira de Azeméis ou a sua inatividade é dado como adquirido?
R> Com a petição, também exigimos o cumprimento da recomendação inscrita na resolução da Assembleia da República 236/2017, na qual se destacam as ligações Sernada do Vouga-Oliveira de Azeméis e Sernada do Vouga-Viseu. Julgamos que o seu restabelecimento permitirá não só a melhoria da qualidade de vida das pessoas (nas deslocações quotidianas, no acesso a serviços e nas regulares movimentações por exemplo, a feiras e mercados) mas também facilitará a circulação de bens, promovendo o desenvolvimento nesta área de interior geográfico.

P> Decidiram lançar a petição no apeadeiro da Aguieira por alguma razão?
R> O apeadeiro da Aguieira constitui, lamentavelmente, um exemplo flagrante do contraste entre uma situação real de perigo permanente e a retórica difundida pela empresa pública Infraestruturas de Portugal, responsável pela gestão ferroviária. De facto, apesar das diferentes iniciativas de denúncia do risco de atravessamento naquele sítio, confrontamo-nos, na página oficial daquela entidade, com a afirmação de que as passagens de nível têm merecido particular atenção por parte da Infraestruturas de Portugal. A segurança é também uma inevitável consequência do desleixo, que não nos pode deixar indiferentes.

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