Dicas para (sobre)viver isolamento em família

A educadora de infância Gisela Dias dá conselhos para este período de isolamento em casa

O atual contexto de estado de emergência decretado no país constitui um desafio para os adultos e crianças que se veem confrontados com a nova realidade de estar confinados em casa 24 horas por dia. O Região de Águeda falou com Gisela Dias, educadora de infância, que nos deixa dicas importantes de como viver estes novos tempos impostos pela pandemia do Covid 19

Para a educadora de infância da ANIP – Associação Nacional de Intervenção Precoce, a tarefa “é difícil”, mas os pais devem encarar este desafio como “uma oportunidade de desenvolvimento das relações e de redefinição de valores”. “Nesta fase, devemos todos questionar-nos se, por exemplo, o nosso modelo de economia familiar é ajustado”, destaca Gisela Dias, de Aguada de Baixo, coautora do livro “Taking the first Steps Outside – Under threes learning and developing in the natural environment”.

A educadora de infância Gisela Dias dá conselhos para este período de isolamento em casa

A educadora de infância Gisela Dias dá conselhos para este período de isolamento em casa

“AJUDAR AS CRIANÇAS A ENTENDER SEM ESCONDER A VERDADE”

Estes são tempos também de reflexão e de promover o diálogo no seio das famílias, considera a educadora, que defende ainda que “se deve dizer a verdade às crianças e ajudá-las a perceber o que está a acontecer”. “Estamos a viver um acontecimento que vai ficar na história e que as crianças vão poder contar aos seus filhos no futuro na primeira pessoa”, sublinha. Mas Gisela Dias deixa o conselho: “as mensagens transmitidas às crianças devem ser pela positiva, dizendo-lhes, por exemplo, se respeitarmos as recomendações conseguimos salvar vidas”.
“Esta é uma oportunidade rara para pais e filhos estarem juntos e, já que estamos a viver esta pandemia, os pais devem disponibilizar-se a estar com os seus filhos e pensar em atividades conjuntas, perguntando aos filhos o que gostariam de fazer”, sugere Gisela Dias, alertando para a necessidade de dosear a utilização das tecnologias que, admite, podem ser um importante instrumento de contacto com familiares e amigos, desde que “na dose certa”.
Gisela Dias chama ainda a atenção para o facto das crianças mais velhas estarem a ser sobrecarregadas com trabalhos e tarefas enviadas pelas escolas. “Os mais velhos têm de enviar relatórios para explicar as tarefas que fizeram ao longo da semana, isso faz com que não tenham tanto tempo para estar umas com as outras”, considera, defendendo que “era bom que os professores doseassem esta carga de responsabilidade que estão a colocar em cima dos miúdos”.

“ESCREVER UM DIÁRIO PODE SER UMA BOA OPÇÃO”

Gisela Dias lembra que são os pais que conhecerão melhor os seus filhos e saberão melhor as tarefas que melhor se adaptarão à família, mas vai deixando algumas sugestões para viver este período de isolamento o melhor possível em família. Os pais podem, por exemplo, sugerir aos filhos que façam um diário sobre a forma como estão a viver este desafio. “Daqui a uns anos vai ser muito útil para perceber tudo isto”, refere Gisela Dias, destacando que “escrever e pensar sobre os nossos sentimentos ajuda-nos neste processo”. Ler ou cozinhar em conjunto, cantar ou ouvir música ou tratar da horta são outras alternativas boas para fazer em família, acrescenta.

“HORA DE TIRAR JOGOS ANTIGOS DO ARMÁRIO”

“Há jogos simples e interessantes que todos temos arrumados, como o Pictionary, por exemplo, é hora de os tirar dos armários e ir aos baús lá de casa”, sugere a educadora.
“Sinto que os pais estão a saber lidar muito bem com isto e o desafio é sermos criativos, ouvir as crianças e perceber o que é que gostavam de fazer e estar atentos uns aos outros”, considera.
Gisela Dias adverte, no entanto, que “as pessoas vão começar a ter comportamentos menos positivos, por estarem 24 horas no mesmo espaço, a partilhar as mesmas coisas”, por isso, defende a educadora, que é necessário “criar condições para que as pessoas possam estar sozinhas em alguns momentos, porque parece que de repente ninguém tem direito à individualidade e isso não é verdade”, sublinha.
“Tenho esperança que ninguém saia desta experiência igual e que saibamos tirar aprendizagens desta experiência”, diz, exortando todos a refletir sobre as nossas atitudes consumistas. “Esta pode ser uma grande lição a tirar para adultos e crianças”, defende por fim.

(publicado na edição da semana – versões e-paper e impressa – de 25 de março de 2020)
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