ESTAÇÃO COM 102 ANOS – Oficinas de Sernada do Vouga dinamizaram construção de automotoras

Sernada do Vouga

A DÉCADA DECISIVA       Há 100 anos, uma linha ferroviária estava concluída. Com dificuldades técnicas e operacionais tremendas. Sernada do Vouga, um pequeno lugar isolado, ganhava importância. O comboio circulava mas houve greve em 1917. E só em 1919 a linha conheceria verdadeiramente a dimensão do que valia: 375 mil passageiros e 66.375 toneladas de mercadorias!

 

Quando em 1941 a Companhia de Caminhos de Ferro do Vale do Vouga decidiu apostar no transporte de passageiros e mercadorias nas ligações ferroviárias em via estreita, as oficinas da estação de Sernada do Vouga voltaram a desempenhar a relevância que lhe estava destinada desde que foi construída em 1914 . Os caminhos de ferro pensavam em substituir as locomotivas movidas a carvão por composições elétricas e a diesel, mantendo a importância que as oficinas de Sernada do Vouga tinham desempenhado desde a chegada do comboio a vapor (ver cronologia). 

As velhas Allan, que serviram na Linha do Vouga a partir de 1975, apodrecem junto às oficinas ferroviárias de Sernada do Vouga

As velhas Allan, que serviram na Linha do Vouga a partir de 1975, apodrecem junto às oficinas ferroviárias de Sernada do Vouga

Naquelas oficinas foram desenvolvidas cinco automotoras a gasolina nos anos 40 – que mais tarde, em 1975, dariam apoio ao recomeço à circulação ferroviária na Linha do Vouga, após três anos de inatividade.
De facto, após um grande incêndio em 1972, consumindo durante três dias vasta área florestal nos concelhos de Águeda e Sever do Vouga, a circulação na Linha do Vouga seria suprimida com o argumento de que seriam as locomotivas a vapor a atear os fogos. A pressão da comunidade para que o comboio voltasse a circular promoveu reuniões entre várias entidades.
Os comboios voltaram no ano seguinte à Revolução de Abril para transporte de passageiros. Duas automotoras faziam o serviço: as holandesas “Allan” (vermelhas e brancas) adaptadas à via estreita (por isso com comportamentos mais modestos que o modelo original) com o perfil de composição motora mais carruagens (18,5 metros); e as ME 51 a 53 (de cor azul ou vermelha), desenvolvidas em Sernada do Vouga.
A vida útil das “Allan”, construídas em 1954, foi passada essencialmente nas linhas do Tua, Dão, Vouga e alguns serviços na Linha da Póvoa, tendo sido retiradas ao serviço em 1990. Não ultrapassava os 70 km/h. Para circularem na Linha do Vouga foram beneficiadas com o motor Volvo, motorização eléctrica com quatro motores Smit GT30/27 S e uma potência do grupo de tração de 284 cavalos.

Uma das automotoras ME produzidas em Sernada do Vouga. Está exposta no Museu Ferroviário de Macinhata

Uma das automotoras ME produzidas em Sernada do Vouga. Está exposta no Museu Ferroviário de Macinhata

AUTOMOTORAS COM 90 CAVALOS

As automotoras construídas em Sernada do Vouga eram mais modestas. Pareciam um pequeno autocarro, desde a estética, a transmissão (Cardan de 4 velocidades + marcha à ré) e a porta de entrada. Tinham bancos de madeira (2ª classe) e outras ligeiramente mais confortáveis (1ª classe).
As automotoras ME 51 a 53 tinham motor Chevrolet a gasolina. Até pelo número de passageiros que comportava (8,72 metros de comprimento), complementava o serviço das “Allan” (composição motora mais reboque, com lotação substancialmente superior) quando o comboio voltou a circular em 1975.
Estas automotoras buriladas em Sernada do Vouga foram construídas na década de 40 (entre 1941 e 1947). A velocidade de circulação não ultrapassava os 89 km/h. O motor Chevrolet D.C.M. 118 216 não ultrapassava os 90 cavalos de potência.
O Museu Ferroviário de Macinhata do Vouga integra duas unidades destas composições, uma azul e outra vermelha e creme.
A verdade é que os relatos da época falam de sucesso, atendendo aos meios disponíveis naquela década. As oficinas ferroviárias de Santa Apolónia viriam a construir sete composições idênticas para a bitola ibérica até 1948.

IMPORTÂNCIA DE VISEU MOTIVOU LINHA DO VOUGA

A importância económica do distrito de Viseu deu origem à construção da Linha do Vouga, de acordo com vários documentos sobre o transporte ferroviário em Portugal. Quando se começaram a definir as ligações ferroviárias no país, em 1856, Viseu estaria para a Linha do Norte como Sernada do Vouga viria a ser para a Linha do Vouga.

Da estação de Viseu, que ficaria ligada a Lisboa, sairiam dois outros eixos ferroviários: um para o Porto e outro em direção a Trás-os-Montes, ligando depois a Zamora (Espanha) e a França.
A conceção inicial foi colocada de parte, substituída pelo traçado atual da Linha do Norte e pela construção da Linha da Beira Alta (que liga a Espanha). Viseu ficaria compensado com um ramal a partir desta linha (para a sua ligação ao sul) e por um eixo ferroviário em direção ao Porto, encurtando o acesso relativamente à Pampilhosa em 41km.
Surgiu assim a Linha do Vale do Vouga, entre Viseu e Espinho, embora projetos iniciais tivessem equacionado a partir de Estarreja (por Albergaria) ou de Aveiro (por Estarreja), em direção a Sever do Vouga.
Além de Viseu, justificava-se a aposta na ferrovia pelo facto dos concelhos que iria atravessar serem “bastante populosos e cultivados” e pela atividade mineira no Braçal, Malhada e Coval da Mó (chumbo) e Palhal e Telhadela (cobre). Águeda não surge nestes relatos, datados de 1879.

TRAÇÃO ELÉTRICA     Surgem relatos que indiciam a tentativa de explorar o transporte ferroviário do Vale do Vouga utilizando a tração elétrica. Em 1898 foi desenvolvido um estudo para ver a viabilidade de aproveitamento da queda da água do Rio Vouga para produção de energia elétrica, que seria utilizada pela locomotiva. A conclusão foi que não seria possível, nem rentável, particularmente durante o Verão.

 

CRONOLOGIA

1875
O eng. Mendes Guerreiro falava pela primeira vez numa linha entre Estarreja e Viseu, entroncando com a Linha de Sta Comba Dão, estudada desde este ano

1877
Chamou-se pela primeira vez Linha do Vouga a um projeto que defendia uma linha entre Estarreja, Albergaria-a-Velha, Vouzela e São Pedro do Sul

1879
Começou a ganhar força a possibilidade da linha partir de Aveiro em direção a Estarreja, e daqui para São Pedro do Sul por Sever do Vouga e Vouzela, devido à exploração mineira

1889
Concedido em julho o alvará da linha, desde Espinho a Vouzela e daqui a Torre Deita, na linha de Sta Comba Dão

1895
Projeto apresentado em outubro, orçado em 2500 contos, para a Linha do Vouga (Espinho – Sernada – Viseu) e ramal de Aveiro

1898
Foi pensada a exploração do comboio de tração elétrica, aproveitando a queda de água do Rio Vouga para produzir energia. Foram realizados estudos no ano seguinte mas a conclusão é que não seria rentável, principalmente durante os meses de Verão

1903
Finalmente aprovado o projeto da Linha do Vouga

1907
A Companhia Francesa de Construção e Exploração de Caminhos de Ferro iniciou, em dezembro, os trabalhos na linha. O terreno acidentado dificultou a execução dos trabalhos: as muitas curvas da linha valeram-lhe a designação da “Linha do Vale das Voltas”

1908
Inauguração oficial do troço Espinho – Oliveira de Azeméis (33km) em outubro, com a presença de D. Manuel II

1909
Aprovação, em fevereiro, do projeto do ramal de Aveiro (Aveiro – Águeda – Sernada, onde ligava com a Linha do Vouga) na extensão de 34,5 kms

1911
Iniciada a exploração da linha de Espinho a Sernada do Vouga, com a inauguração do troço entre a estação de Albergaria e Sernada a 8 de setembro; e também do ramal de Aveiro, entre Sernada e Aveiro. Ficou apenas por concluir a ligação de Sernada a Viseu

1913
Linha de Espinho até Vouzela, com a conclusão do troço Sernada a Vouzela, e de Bodiosa a Viseu

1914
Linha totalmente ligada de Espinho a Viseu com a conclusão do troço que faltava, de Vouzela a Bodiosa (5 de fevereiro). Foi também aprovada a estação da Sernada como ponto de confluência da Linha do Vouga com o ramal de Aveiro, localização que gerou controvérsia

1917
Greve dos ferroviários da linha do Vouga a 9 de maio, com concentração dos comboios na estação de Sernada do Vouga

1919
Primeiro ano de exploração total da Linha do Vouga e ramal de Aveiro, depois de concluída a 1ª Guerra Mundial: foram transportados 375 mil passageiros e 66.375 toneladas de mercadorias

1926
Pensada, pela segunda vez, o prolongamento da linha da estação de Aveiro às salinas da cidade (Canal de São Roque) e, pela primeira vez, deste ponto a Ílhavo, Vagos, Mira e Cantanhede, que ficaria em suspenso… para sempre

1947
A Companhia dos Caminhos de Ferro Portugueses passou a explorar a Linha do Vouga no dia 1 de janeiro

1972
O último comboio a vapor, entre Aveiro e Viseu, nos dois sentidos, em viagem comercial, efetuou-se a 25 de agosto. O comboio foi rebocado por uma locomotiva a diesel

1972 a 75
Linha encerrada pelo facto, alegadamente, das locomotivas serem as principais responsáveis pelos incêndios florestais. Houve descontentamento popular e a linha reabriu com locomotivas a diesel

1990
No dia 1 de janeiro, o troço Sernada – Viseu encerrou, acabando a linha por ser desmantelada. O comboio foi inicialmente substituído por autocarros, propriedade da CP, mas a solução não agradou devido à sinuosidade da EN16 – incómoda e não permitindo velocidades superiores a 40km/hora. Subsiste o ramal de Aveiro e a exploração de Espinho a Oliveira de Azeméis, com táxis a complementarem serviço desde Sernada

A velha Allan e uma das atuais composições que circula entre Sernada do Vouga e Aveiro

A velha Allan e uma das atuais composições que circula entre Sernada do Vouga e Aveiro

NÚMEROS

175
extensão total, em quilómetros, da via férrea de Espinho a Viseu, incluindo o ramal de Aveiro.

55
metros é o comprimento do vão da ponte do Poço de Santiago, a obra de arte mais notável da linha do Vouga

21
túneis construídos: 20 de Espinho a Viseu (totalizando 774,77 metros) e um no ramal de Aveiro a Sernada (em Eirol, com extensão de 73,20 metros)

17
pontes construídas: 13 de Espinho a Viseu (totalizando pouco mais de mil metros) e 4 de Aveiro a Sernada (290 metros)

33
estações construídas, 6 das quais no ramal de Aveiro a Sernada

 

AUGUSTO SEMEDO

(leia mais nas edições e-paper e impressa)

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