Fazer.o.que.ainda.não.foi.feito@Águeda.pt, por Alberto Marques

Ao circular pela baixa da cidade, perante os placares e as máquinas que laboram junto ao rio, vem-me à memória o título do mais recente sucesso de Pedro Abrunhosa – “Fazer o que ainda não foi feito”.

A Câmara Municipal tomou a decisão de avançar com algumas obras “de regime”, potencialmente emblemáticas, mas cuja urgência é, no mínimo, discutível. Nesta época de crise económica persistente e profunda, agravada pelo crescente problema social daí decorrente, não consigo entender a necessidade de se gastarem vários milhões de euros na destruição e reconstrução de diversas obras já existentes.

Posso até conceder que as soluções originais encontradas para a requalificação de alguns espaços emblemáticos da cidade não tenham sido consensuais. Por mais aspectos positivos que existam, é sempre fácil apontar vários erros de concepção e construção que, porventura, mereceriam eventuais correcções. Também me parece óbvio que tais correcções carecem de análises cuidadas e, acima de tudo, a espera por melhores dias que permitam sustentar financeiramente os investimentos necessários.

Deixo-vos alguns exemplos: a requalificação da margem esquerda do rio Águeda, dividida em duas dispendiosas obras (o Largo 1º de Maio e a zona do Cais das Laranjeiras) promete reconverter estas zonas de acordo com a filosofia idealizada por este executivo; o projecto de regeneração urbana, prevê a radical transformação da zona central da cidade, incluindo intervenções profundas na Avenida Dr. Eugénio Ribeiro e, pela enésima vez, na Rua Fernando Caldeira, frente ao tribunal; o pavilhão desportivo do GICA vai ser reconvertido, cabendo à autarquia uma parte significativa dos custos; o Parque da Alta Vila tem sido repetidamente intervencionado. Nas ruas da cidade, vão nascendo as inenarráveis faixas vermelhas, supostamente destinadas aos ciclistas. E podia continuar com mais casos de obras que têm em comum a necessidade de destruir o que já está feito, para refazer de acordo com os novos gostos e tendências.

Note-se que estamos a falar de obras cujos custos importam em várias centenas de milhares de euros (algumas, em milhões de euros). Perante estas constatações, dirá o executivo que se trata de obras parcialmente financiadas por diversos programas de apoio, e que a autarquia só tem a ganhar com a sua realização. É um facto que as novas valências serão melhores do que as antigas. Seria o cúmulo se assim não fosse. Mas também é óbvio que o investimento por conta da autarquia nestas obras ascende a valores muito elevados e, ao optar por estes projectos, a Câmara deixa de lado muitos outros que aguardam há décadas pela concretização.

Este cenário poderia, facilmente, ser explorado de forma demagógica, como tantas vezes assistimos em situações análogas. Tentarei resistir a essa tentação. Não seria intelectualmente honesto fundamentar a intervenção política na exploração de opções de investimentos ditos “supérfluos” em detrimento de outros fundamentais (de cariz social, por exemplo). Não é disso que se trata. O que se passa é que está a gastar-se milhões a destruir e refazer obras que já estavam feitas, num contexto em que se aconselha precisamente o contrário.

Não ponho, tampouco, em causa a qualidade das soluções actualmente em construção. Como sempre, irão agradar a muitos, desagradando a alguns. Não é isso que está em causa. O que me espanta é a decisão de avançar para estes investimentos de milhões, refazendo o que já estava feito, quando há tanto ainda por fazer.

Como conseguirá o Presidente da Câmara explicar aos autarcas e populações das freguesias do concelho, os sucessivos adiamentos na realização de dezenas de “pequenas” (mas urgentes) obras que vão passando, ano após ano, de um Plano de Actividades para os próximos? Como reagirão os munícipes que aguardam a chegada da rede de saneamento onde ainda não existe? E o que sentirão os empresários cujas empresas são servidas por estradas de terra, poeirentas ou enlameadas, ao assistirem às sucessivas repavimentações? Para além de sugerir que devemos “Fazer o que ainda não foi feito”, a canção de Pedro Abrunhosa alerta que “Amanhã é sempre tarde demais”. E eu pergunto: será que ainda vamos a tempo?…

ALBERTO MARQUES

vice-presidente do PSD/Águeda

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