Gil Nadais: a entrevista que finaliza ciclo de 12 anos na Câmara de Águeda

Discurso de despedida de Gil Nadais

Gil Nadais termina, no dia 24 de outubro, um ciclo de 12 anos à frente da Câmara Municipal de Águeda. Apreciadas por uns e contestadas por outros, pôs em marcha obras, ao longo dos seus três mandatos, que não são indiferentes a ninguém, como o parque empresarial do Casarão e a polémica regeneração urbana. Reconhecido pela sua capacidade de trabalho e de visão, mas também pela sua teimosia, Gil Nadais deixa como legado a Águeda um centro de artes, que custou cerca de 5 milhões de euros, e vários prémios pela modernização administrativa que implementou na autarquia. Entusiasta das smart cities e do ensino através dos tablets, deixa por cumprir algumas das suas promessas, nomeadamente o parque urbano e o museu da indústria. Em entrevista ao Região de Águeda, Gil Nadais faz o balanço de 12 anos, sem fugir a perguntas mais incómodas, como é seu apanágio, como o conturbado processo eleitoral no PS

P> Ficou satisfeito com os resultados eleitorais das autárquicas em Águeda?
R> Fico sempre satisfeito com os resultados quando o povo se exprime em democracia e em liberdade. As eleições decorreram de uma forma ordeira e o povo expressou a sua vontade. Por isso, não tenho comentários a fazer sobre isso.

P> Mas porque é que não manifestou publicamente apoio a qualquer um dos candidatos à presidência da Câmara Municipal?
R> Não dei o meu apoio público porque não apoiei a solução encontrada pelo PS e, como tal, entendi que não me deveria manifestar.

P> Mas uma vez votado o candidato socialista na concelhia…
R> Vamos lá ver… também não tenho de fazer uma sucessão… Não estamos a falar de nenhuma dinastia ou reinado, por isso não tenho de designar um sucessor. São os eleitores que devem fazer essa escolha. Aliás, eu nunca assumi, em tempo algum, que haveria aqui alguma continuidade ou uma pessoa que escolheria para dar continuidade. O povo é soberano e o povo sabe quem deve escolher.

P> Não acha que deveria manifestar esse apoio por uma questão de lealdade ao partido que o elegeu?
R> Fui muito leal ao partido porque eu nunca…

P> … também não fez campanha pelo Juntos – Movimento Independente…
R> Não fiz campanha por nenhuma força política, mas não poderia obviamente apoiar quem manifestou, por diversas vezes e de forma veemente, a discordância em relação a políticas que eu considerava fundamentais na autarquia. Estou consciente de que fiz o melhor e aquelas decisões foram as mais adequadas para o concelho e não podia apoiar alguém que esteve contra essas decisões e não as defendia. Isso seria incoerente da minha parte.

P> Também esteve muito calado durante o conturbado processo de escolha do candidato do PS… o que achou?
R> Democraticamente a concelhia escolheu e tanto quanto sei nos termos estatutários. A partir daí eu posso concordar ou não democraticamente com a escolha.

P> A sua escolha era Francisco Vitorino…
R> A minha escolha não era aquela que aconteceu…

P> Quer Paulo Seara quer Jorge Almeida se apresentaram ao eleitorado como continuadores da obra de Gil Nadais. Reconhece a Jorge Almeida capacidade para dar continuidade à sua obra?
R> Acho que a continuidade era um bom argumento para qualquer candidato, acho que até inclusivamente outros partidos disseram a mesma coisa… Agora vamos ver. Espero que façam o melhor trabalho.

P> Acha que Jorge Almeida, que foi seu vice-presidente durante estes 12 anos, será um líder à sua imagem?
R> O Jorge Almeida será o líder à sua imagem. Tem características próprias – que não são as minhas – mas essa diversidade de estilos é o que enriquece qualquer equipa de governação ou outra. Espero que tenha os maiores êxitos porque os seus êxitos são os êxitos do concelho e eu continuarei cá, cidadão de Águeda, por isso desejo as maiores venturas para o próximo executivo.

P> Que conselho é que lhe daria para estes próximos quatro anos?
R> Acho que o Jorge Almeida tem capacidade para tomar as suas próprias decisões, porque um presidente de câmara ouve muita gente mas depois decide por si, porque tem de decidir muitas vezes em desacordo com aquilo que pessoas que lhes estão próximas dizem, portanto, não dou conselhos. Digo apenas que deve seguir a sua linha.

 

Águeda Aerea

Águeda

O FUTURO DE ÁGUEDA

“Não podemos fazer em cada freguesia uma mini cidade de Águeda”

P> Na sua opinião, quais devem ser as grandes apostas para Águeda nos próximos anos?
R> As apostas estão no terreno… depois há concretizações diferentes dessas apostas porque os tempos vão evoluindo e é preciso reequacionar a estratégia. Penso que a aposta deve passar pela captação e apoio à indústria. E porquê? Porque se tivermos emprego, teremos condições para as pessoas viverem cá e sermos atrativos. Deve passar ainda pela educação e pela cultura. Agora a que é que se dá mais primazia isso depende das opções próprias do executivo.

P> Faria agora uma aposta diferente nas freguesias? Tem razão a oposição quando diz que se privilegiou a cidade e se desinvestiu nas freguesias?
R> Não, a crítica não é legítima. Porque as freguesias tiveram verbas como nunca tiveram anteriormente e com quadros bem estabelecidos. A pergunta que deixo àqueles que dizem e sempre disseram que era preciso fazer obras nas freguesias é o que é que é preciso na sua freguesia? Eles têm que dizer. Porque não fazer obras nas freguesias é um “chavão” que foi utilizado pelo PSD durante todo o mandato. Aquilo que se passa é que nós temos carências em algumas freguesias, mas as freguesias do concelho de Águeda estão, na minha perspetiva, bastante bem. Obviamente, que têm que continuar a ter desenvolvimento, mas não podemos fazer em cada freguesia uma mini cidade de Águeda. E sempre fomos claros e assumimos isso. Águeda tem de ser o centro do concelho e o chamariz para todo o concelho. Depois tem de haver projetos que se diferenciem nas freguesias e que potenciem essas freguesias. Dou um exemplo. Fizemos um investimento enorme, tendo em consideração a dimensão da freguesia, em Macieira de Alcoba, mas porque surgiram projetos diferenciadores que podíamos desenvolver lá. Houve outros que não avançaram porque não houve condições, mas penso que agora estarão melhores, é o caso dos comboios em Macinhata do Vouga. Há coisas únicas que temos de desenvolver, em cada freguesia temos de procurar aspetos diferenciadores. Não faz sentido construir repuxos ou fontanários em cada freguesia ou colocar alcatrão no largo…

P> A Pateira foi uma das principais bandeiras da sua campanha eleitoral de há 12 anos. A Pateira é hoje o que perspetivou nessa altura?
R> Demos um salto qualitativo. Aquilo que me lembro quando entrámos é que tinha um enorme manto de jacintos a cobrir a água. Resolvemos esse problema, classificámo-la como zona RAMSAR – zona húmida protegida de dimensão internacional, que lhe dá alguma notoriedade. Estamos num programa de observação de aves, tivemos um trabalho enorme para convencer os caçadores, porque estava numa zona de caça, que seria melhor ter a Pateira sem caça e estão agora a serem recolhidos os benefícios de todo esse trabalho que tivemos porque estão a aparecer quantidades enormes de pássaros que permitem fazer muitas ações na pateira. Obviamente que se tivéssemos mais uma unidade hoteleira era capaz de fazer sentido ou se tivéssemos mais um centro de interpretação da pateira pelo qual lutámos seria melhor, mas é um caminho que acho que se deve continuar a trilhar. Mas acho que a Pateira está bastante melhor. Claro que pode ficar melhor ainda, mas está seguramente muito melhor do que aquilo que encontrámos há 12 anos.

P> As obras de regeneração urbana foram bastantes contestadas. A cidade está hoje mais bonita e funcional em ternos de trânsito, por exemplo, do que estava há 12 anos, na sua opinião?
R> Defendo, como acontece em muitas cidades, que os carros dentro das cidades devem andar devagar. A primazia dentro das cidades não deve ser dada aos carros mas, sim, às pessoas. Diminuímos a velocidade de circulação dentro da cidade e temos as pessoas mais confiantes a andar na rua e mais espaços livres. Acho que nesse aspeto melhorámos significativamente. E esse é um trabalho que ainda vai continuar porque deixámos vários projetos que irão melhorar a cidade. Estou convencido – e isso é reconhecido por muita gente que nos visita e mesmo pelos que cá estão – que a cidade está muito mais atrativa e confortável para as pessoas. E se juntarmos a isto a recuperação da Alta Vila que está em marcha e depois o parque urbano da cidade então Águeda poderá afirmar-se…

P> O parque urbano também foi uma das suas promessas que ficou por concretizar…
R> O projeto está a ser feito. Temos os terrenos há alguns anos adquiridos e fizemos um concurso de ideias. E, contrariamente ao que sucedeu com o centro de artes, que tivemos muito projetos, para o parque urbano só tivemos dois.

 

Empresa Sakthi em Águeda

Empresa Sakthi no parque empresarial do Casarão

OS MAIORES DESAFIOS

“O parque empresarial foi o projeto mais marcante que levámos a efeito”

P> Concretizou o que Águeda ansiava há décadas, um parque empresarial, e a modernização administrativa que implementou na autarquia valeu-lhe vários prémios, mas ficou por concretizar, por exemplo, o museu da indústria…
R> Também tenho de deixar algumas coisas para os outros fazerem (Risos)… lançamos o projeto… Eu não lhe chamarei museu da indústria… obviamente que isso são decisões que o próximo executivo vai ter de tomar, uma vez que contratámos uma equipa para desenvolver esse projeto, porque não queríamos um museu para ter lá umas máquinas, o que estava na base era aproveitar a memória de Águeda, mas torná-lo vivo fazendo um centro de makers. Levando as novas tecnologias para lá, as impressões 3D, os corta laser, mas também as soldaduras, as bicicletas, etc, para que seja um espaço vivo, combinando todas essas coisas. Esse projeto está a ser discutido ainda. Foi-me apresentado há relativamente pouco tempo e eu não quis condicionar o próximo executivo relativamente a isso.

P> E a incubadora cultural?
R> Está ocupada neste momento pela Skathi. Estou convencido que durante este mês de outubro sairá e que a partir daí a câmara poderá desenvolver os projetos.

P> O parque empresarial foi a cereja no topo do bolo do seu mandato?
R> O parque empresarial foi o projeto mais marcante que levámos a efeito e aquele que poderá marcar Águeda durante muito tempo, porque aquilo que conseguimos fazer, não só fazer o parque, mas as empresas que conseguimos lá colocar e que nos tornámos atrativos penso que vamos ter no futuro um parque com muito know how e muita atratibilidade. E estou convencido que é uma enorme mais valia para o concelho.

P> E como é que acha que vai ser a convivência de Águeda com o seu parque empresarial? Já se fala na falta de habitação…
R> Repare, andei muito preocupado quando tínhamos um desemprego elevado e tínhamos pessoas com carências graves. Não tinham emprego, não tinham meio de subsistência e esses eram problemas que me consumiam porque mexem com aquilo que era essencial das pessoas. Agora termos falta de habitação é um problema que para um autarca dá muita satisfação. Aquilo que temos de fazer é incentivar os privados e criar condições melhores para que eles deem resposta. São aquilo que eu considero problemas positivos de crescimento. Obviamente que os empresários sentem esses problemas. Acho que deve haver uma política integrada de captar mais pessoas para Águeda

P> … até porque a população tem decrescido nos últimos anos…
R> Acho que face à não existência de casas em Águeda neste momento não deve acontecer isso…

P> São os números oficiais…
R> Mas os números oficiais vêm com algum atraso e eu penso que isso irá ser refletido a breve trecho. Poderá haver muitos que ainda possam não ter mudado a sua residência oficial para cá… mas nós somos um concelho que recebe muitas pessoas para vir trabalhar. E se conseguirmos dar habitação a custos razoáveis, com as condições de impostos que temos, tornamo-nos mais atrativos. Uma das coisas que eu acho que a câmara deve pensar é quem é que vai chamar para haver mais construção em Águeda.

P> Os empresários queixam-se da falta de mão de obra…
R> Esse é dos problemas positivos. É preciso é estruturar políticas no sentido de as trazer para aqui. E isso é um trabalho que tem de ser feito com a autarquia, com os empresários, para conseguir dar resposta. São desafios interessantes.

P> Como é que gostaria de ser lembrando na história do município? Pelo pagador de promessas do PSD…
R> (Risos) Sinceramente essa é uma questão que não penso. Não faço as coisas para ficar na história, faço porque entendo que é o melhor. Alguns irão ter uma imagem de mim positiva porque nós tivemos uma ação grande em bastantes áreas. Obviamente que o parque empresarial é um marco, mas o centro d artes também é outro marco, o canal e o Agitágueda também são outros marcos. Algumas pessoas por aquilo que se sentem mais atraídas. Outros é por aquilo que eu impedi de fazer. Há os que gostam e os que não gostam da nossa ação.

P> Há alguma coisa de que se arrependa de ter feitos nestes 12 anos?
R> Não me arrependo do nada. Obviamente quando tomo as decisões, são as melhores decisões que eu posso tomar naquele momento. De acordo com as circunstâncias, mas mudando as circunstâncias eu podia ter agido de outra forma. Posso dizer que houve decisões difíceis de serem tomadas, inclusivamente em tempos de crise relativamente aos investimentos a realizar em Águeda e que eu tive de decidir aquilo tudo muito em cima da hora e deixar andar, porque o clima era muito negativo. Felizmente não me deixei influenciar por esse clima negativo.

 

Gil Nadais

Gil Nadais, presidente da Câmara Municipal de Águeda entre 2005 e 2017

ADRA

“Assunto foi conduzido de forma enviesada contra os interesses de Águeda”

P> E a AdrA? O seu vice-presidente disse num debate promovido pelos jornais que havia um pacto no sentido de ultrapassar a questão…
R> Nós ao longo destes anos já conseguimos ver isso reconhecido, que a posição de Águeda não está refletida na estrutura acionista. O problema disto depois é que – se fosse só mudar a estrutura acionista já estava feito – mas tem a ver que eu sempre disse que queria a parte financeira que devia ter vindo agregada a essa correção do capital e isso são 6 milhões de euros e aqui, sim, é que as coisas se complicam. Existe consenso sim que a posição de Águeda tem de ser revista, agora como é que vai ser aí é que as coisas se complicam. Isto foi uma guerra com a AdRA muito grande e muito desgastante porque eu assumi posições muito duras na CIRA. No caso da AdRA o assunto foi conduzido de uma forma muito enviesada a contrariar os interesses de Águeda de uma forma deliberada que nós viemos a descobrir mais tarde. E aquilo que eu fiz quando descobrimos isso, os documentos a que tive acesso teve todo o executivo e teve toda a Assembleia Municipal. Portanto, mesmo aqueles que se arrogam de ter votado contra, votaram contra porque estavam contra porque querem estar do contra, não analisaram os papéis e não viram o que mais tarde vim a encontrar, porque eles estiveram lá e foram chamados à decisão. Se tivessem visto na altura, teríamos tido obviamente outro posicionamento. Mas aquilo que importa agora é o futuro e aquilo que tem de ser feito é reconhecer o papel que Águeda tem naquela estrutura e dar-nos o valor ou então – que já disse que isso para mim estava em cima da mesa – sair. Agora vai competir ao próximo executivo e próxima assembleia municipal.

 

Centro De Artes De Águeda

Centro de Artes de Águeda, inaugurado em maio de 2017

CENTRO DE ARTES

“Equipamento não tem de ser 100% sustentável”

P> Preocupa-o a sustentabilidade do centro de artes?
R> As pessoas que são contra o centro de artes têm de dizer qual é a sua ideia de desenvolvimento do concelho. Se acham que as pessoas de Águeda deviam ir todas para Albergaria ou Anadia para assistir a um espetáculo. Isso é a opinião deles. Eu quero que as pessoas de Águeda tenham um bom equipamento para assistir aos melhores espetáculos e que se posicione inclusivamente como um referencial na região para atrair outros públicos. Foi isto que foi feito. Agora falta saber se existe a capacidade e o engenho para dinamizar aquele centro de artes. Aquele equipamento não tem de viver exclusivamente da autarquia.

P> O que quer dizer?
R> Pode arranjar outros meios para apoiar a sua atividade. É preciso é ser criativo e criar condições para dinamizar e criar sustentabilidade. Eu não estou a dizer que tenha de ser sustentável a 100% porque se formos a ver a piscina também não é sustentável a 100%, pelo contrário, tem uma fatura bastante grande todos os meses. Mas a câmara de Águeda também já tinha uma fatura com o cine-teatro s. pedro. Agora tem uma fatia que será maior. Agora se for tudo só orçamento da câmara será uma fatura muito elevada, se for uma fatura que seja repartido com outras receitas, por exemplo já tem aparecido pessoas a alugar as instalações. Isso já são algumas receitas.

P> Mas a gestão, na sua opinião, terá de ser municipal?
R> Não me debrucei sequer sobre isso. Eu por exemplo sobre a piscina achava que a gestão da piscina deveria ser exterior à câmara, porque era mais fácil gerir, porque a câmara tem muita rigidez em termos processuais e de procedimentos. Não encontrámos um parceiro que conseguíssemos fazer um acordo que servisse ambas as partes. Sobre isso não ponho problemas nenhuns. Acho que deve ser encontrado o melhor modelo. Mas eu vejo as pessoas muito preocupadas com as despesas, mas nunca olharam para as receitas e o centro de artes quando há espetáculos também dá receitas, não é tudo grátis, portanto tem algumas receitas. Há uma margem e esta margem pode ser maior ou menor, dependendo do trabalho que se tenha, de deficit. o que é que queremos para o concelho é a questão. Queremos ser de terceira ou de primeira? O centro de artes foi feito com verbas que estavam disponíveis na autarquia. Não recorremos a empréstimos. Não fica para as próximas gerações pagarem. Está totalmente pago. Porque aquilo que estávamos habituados em Águeda era recorrer a empréstimos para fazer alguma coisa. E aquilo que nós fizemos foi diminuir os empréstimos – acabamos o mandato com menos 3 milhões de euros de empréstimos à banca de médio longo prazo e com todos os investimentos que foram feitos em Águeda, que foram muitos milhões de euros totalmente liquidados sem recorrer a qualquer empréstimo.

P> Afinal qual é o valor da dívida?
R> isto da dívida é conforme se lê…

P> É com ou sem compromissos?
R> (risos) Com compromissos vai por aí fora… Por acaso estive a ver isso agora… Dos compromissos são 13 milhões de euros, que aquilo que está compromissado de obras para serem feitas no futuro… em termos de disponibilidades de tesouraria são 2 milhões e qualquer coisa. Era isso que estava disponível a 30 de setembro. O endividamento de médio longo prazo não chega a 3 milhões. É uma câmara perfeitamente gerível. Temos uma situação a 30 de setembro que é melhor do que a que tínhamos a 31 de dezembro do ano passado. O saldo é positivo, era negativo porque estava influenciado pelo Lidl. Temos a situação do Lidl completamente resolvida. Já cedemos e já pagámos, fizemos as escrituras dos terrenos, já temos duas empresas a serem construídas.

 

Gil Nadais defendeu-se das críticas do seu partido sobre a municipalização da educação. O processo foi desencadeado durante o governo de Pedro Passos Coelho. Águeda foi um dos municípios piloto

Gil Nadais defendeu-se das críticas do seu partido sobre a municipalização da educação. O processo foi desencadeado durante o governo de Pedro Passos Coelho. Águeda foi um dos municípios piloto

EDUCAÇÃO COMO BANDEIRA

“Aproveitamento aumentou com a introdução dos tablets”

P> A educação foi uma das suas grandes apostas… Temos um projeto piloto, tablets nas escolas mas não temos carta educativa…
R> A educação sempre foi para nós uma área chave de aposta. Fomos acusados logo nos primeiros anos de que propúnhamos muitas coisas às escolas. Isso é uma boa acusação. O que procurámos no início foi dar condições para que pudessem melhor desenvolver a sua ação. Depois entrámos na fase de recuperação das instalações. Aí foi um investimento pesado, mas conseguimos recuperar praticamente todo o parque escolar. Concluída esta fase havia que dar o salto a seguir, eu acho que em ternos de política de educação, o Ministério da Educação tem de dar as linhas gerais e avaliar os resultados, não pode condicionar e querer comandar tudo a partir de Lisboa. Os senhores diretores têm que ter mais responsabilidades e serem responsáveis pelo trabalho e não estar permanentemente a pedir para fazer isto e aquilo. Tem de haver muito maior autonomia nas escolas e por isso é que nós fomos falar com o Ministro do Governo anterior e pedimos que transferisse mais competências para a câmara e aquilo que nós dissemos é que estávamos disponíveis para receber todas à exceção dos professores, porque entendíamos que seria uma guerra muito grande e não valia a pena entrarmos nesse problema. Isto durante bastante tempo não teve resposta, esteve a marinar e depois apareceu o Aproximar Educação e que nós aderimos desde o início. Nós nunca quisemos trazer mais competências para a câmara ficar a mandar nas escolas, porque então só o ministério mudava de sítio… nós queremos que algumas coisas saiam das escolas porque não tem sentido serem as escolas a fazer. Por exemplo, não deve ser a escola a tratar do contrato de energia, não vale a pena, a câmara trata disso para outros edifícios e pode tratar de tudo, como as fotocopiadoras, a câmara tem um contrato é alarga-lo às escolas. Vamos deixar na escola os assuntos de educação pura e dura. Obviamente que acompanhamos, damos a nossa opinião, não impomos mas também fomos eleitos para dar alguma orientação, mas não queremos mandar na escola. O atual governo quando entrou foi muito contra este modelo de transferência de competências o que está definido da transferência de competências até é menos do que nós temos neste momento, mas o governo tem vindo a abrir sucessivamente projetos e possibilidades das escolas terem projetos autónomos, ou seja aquele que nos disse que não queria as transferências está a dá-las aos poucos e penso que está no caminho certo e está a fazer – não com as câmaras mas diretamente com as escolas – a pequenos projetos que vão no sentido da autonomia das escolas, que eu acho que é o caminho correto. Não é em Lisboa que sabem que o aluno A precisa mais disto ou daquilo, é o diretor e o diretor tem que ter a possibilidade de gerir os seus recursos da melhor forma. Por exemplo, os orçamentos das escolas é muito baixo, tirando os vencimentos, o remanescente é muito baixo, não se imagina a ginástica que é preciso fazer para mudar dinheiro de uma rubrica para outras, as autorizações que precisa de ter. E o senhor diretor tem de andar à procura dessas autorizações todas. Acho que hás muito a fazer nesta área.

P> Mas faz uma avaliação positiva do que foi feito até aqui?
R> Faço e faço ainda mais positivo da introdução dos tablets. Acho que tivemos a estratégia correta porque nós não impusemos nada, desafiámos os diretores para termos pelo menos uma turma, eles quiseram mais e apoiámos e temos professores que se voluntariaram para estar nestes projetos. Alguns professores com quem tive oportunidade de falar aquilo que se verificou é que o nível de aproveitamento aumentou mas não foi logo no imediato. Quando foram introduzidos os tablets o aproveitamento diminuiu por causa da curiosidade, o explorar… o estar perdido com uma nova ferramenta que lhe davam fez dispersas durante um tempo a atenção dos alunos, depois entrou em velocidade de cruzeiro e o aproveitamento melhorou. Este projeto permite um ensino mais individualizado. Não é a panaceia nem a resposta para todos os problemas mas pode ajudar a resolver alguns.

P> E a carta educativa que já devia estar feita de acordo com os prazos definidos?
R> O ministério também não cumpriu… quando tivemos isso tivemos também um ministério que nos deu sinais contraditórios, se era para continuar este projeto se não era e nós estávamos aqui a trabalhar para aquecer e fazermos um documento que podia ser mais ou menos controverso, mas que poderia ser um documento que se tornasse obsoleto em muito pouco tempo, decidimos que não iriamos avançar, mas há projetos educativos de cada escola e que estão coordenados, porque há uma reunião mensal – também foi uma das coisas que foi instituída – entre a senhora vereadora e os diretores das escolas no sentido de ser permanentemente aferido como é que é feita a continuidade e para onde vamos em termos de educação, portanto, pode não estar plasmado num documento aprovado, mas existe muita coordenação nessa área.

P> O seu regresso à vida autárquica daqui a quatro anos é uma possibilidade?
R> Possível é, mas não equaciono neste momento.

P> O que vai fazer depois do dia 24 de outubro?
R> Não sei ainda o que vou fazer… tenho várias propostas que estou a analisar…

P> Privadas? Públicas?
R> Privadas e públicas.

P> Transformar Águeda numa Smart City foi outra das suas bandeiras… mas fomos ouvindo ao longo do mandato algumas críticas, sobretudo por parte da oposição, de que Águeda não estaria assim tão “smart”…
R> Acho que alguns não sabem o que é verdadeiramente uma smart city ou o que é que isso quer dizer para as pessoas. Trata-se da utilização das tecnologias ao serviço das pessoas. É ter melhor qualidade de vida, mais bem estar. Aquilo que nós fizemos da modernização administrativa, agora chama-se e government é uma das vertentes das smart cities… ou seja, antes das smart cities já fazíamos smart cities… mas o projeto que tínhamos para aqui era de vanguarda mesmo, que nos posicionava nos lugares cimeiros a nível europeu e mundial, mas penso que poderão continuar e fazer algumas coisas porque Águeda e a cidade também precisam, devem ter bandeiras, e a bandeira do serviço ao cidadão de ais alto nível deve ser uma daquelas que deve fazer parte do dia a dia.

P> Que implicações tem isso na vida do dia a dia dos aguedenses?
R> Essas coias só se vão sentindo a médio e longo prazo, vai-se fazendo e vai-se sentindo. Por exemplo nós temos aí uma coisa para sair dentro de pouco tempo que tem a ver com os técnicos das obras poderem mandar os seus processos diretamente de casa e introduzi-los dentro do sistema. Quem é que vai sentir isto? São os técnicos que fazem projetos. Nem o promotor vai ter noção disto. Um outro exemplo, desenvolvemos uma aplicação que permite às pessoas que querem reflorestar os seus eucaliptais que vão à internet e tiram as plantas. O desenvolvimento desta aplicação foi tão intenso, que os gráficos foram previstos até 4000 utilizações anuais e este ano já ultrapassamos largamente as 5000. Devemos definir um objetivo onde pretendemos chegar e depois vamos colocando as pequenas peças para chegar a esse objetivo.

Gil Nadais recebeu comenda em Rio Grande, cidade geminada com Águeda

Gil Nadais recebeu comenda em Rio Grande, cidade geminada com Águeda

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