Impressões a Branco e Preto – 10 anos do Região de Águeda

RUI BASTOS, director

Já não sei se foi em Budapeste que não tive oportunidade de visitar uma determinada galeria de arte onde havia um quadro que o catálogo referenciava como “a cidade”. Lembro-me, isso sim, de que se tratava de uma tela completamente pintada de branco que ocupava quase toda a superfície de uma das paredes da galeria e que, também por isso, clamava imperativamente por atenção.

Em conversa com o pintor que deambulava por ali a fumar um cigarro e a bebericar um copo de Tokai, de que passei a ser cliente, percebi a profundidade da simbologia do que só na aparência era simplista!

Disse-me, num inglês que eu também percebia, que naquela tela pretendeu expressar, para além de tudo, os sentimentos das pessoas que habitavam a cidade, as suas angústias, as suas ansiedades, os seus amores e desamores, a solidão e a nervura dos dias em silêncio atravessados pelos sons dos néons publicitários e pelos motores dos carros, o sexo fora de horas, premente e fugidio ou o odor do abandono de um copo de vinho vazio com um cigarro apagado à pressa no cinzeiro ou, ainda, o olhar das crianças a acordar para ir para a escola em manhãs cinzentas e tudo o mais, tanto mais, que a cidade tira, retira, à humanidade que nos esforçamos por representar quotidianamente.

Mesmo esforçando-me por compreender a sua idiossincrasia artística confrontei-o com a brancura da tela, se seria ela a tradução da pureza dos gestos todos que nos roubam no dia-a-dia. Mas não, explicou era um muro, alto, muito alto, branco, todo branco, na base do qual ele se havia sentado, costas direitas contra o muro, pernas estendidas e papel de desenho no regaço das pernas e lápis de carvão nos dedos. E, por detrás do muro viu a floresta enorme e densa, impenetrável. E, depois da floresta os campos mesclados de cores agrícolas. E depois do campo as estradas sinuosas, primeiro, serpenteando até às grandes vias que conduziam à cidade. E depois as primeiras casas. E depois os prédios mais altos, o vidro e o aço, as construções históricas, ali a ponte da Imperatriz, mais além o Parlamento em triplicado, a Praça dos Heróis, as saunas e os outros todos, a estação ferroviária, os centros comerciais, as ruas, as avenidas, as praças, as pessoas… Ali, então, estava a Cidade! E nela as pessoas. Era essa a sua pintura!

É claro que um muro branco não chega para representar uma cidade! A menos que a olhemos com olhos de ver e, então, não haverá muros que tapem os bosques, que ocultem os campos, que escondam os edifícios onde vivem as pessoas… Os sentimentos, os ideais, toda a nossa filosofia de vida, cabem então em qualquer tela.

O Região de Águeda é a tela em que temos vindo a imprimir a Cidade que pensamos e que queremos ver. Feita de pessoas e não de interesses. Onde outros vêm uma simples tela branca, nós vemos muito mais! Ou como disse Murakami “Se conseguiu ver índios, isso significa que eles não andam por estas paragens”.

Dez anos. Um marco que não perseguimos só por si, antes uma inevitabilidade que procurámos fazer acontecer. E aconteceu.

Este, seguramente, também, um culminar de anseios sobreviventes de uma existência póstuma que, mesmo antes de se apartar do nosso convívio já havia alcançado a realização do que se havia proposto. Na mera ausência física do Comendador Adolfo Roque, também é um aniversário que com ele partilhamos por inteiro.

A vida é feita de paradoxos que raramente dominamos. Todavia, cumpre-nos sempre acreditar que é ao alcance do nosso querer que se plasma qualquer obra e, assim, é nosso dever prosseguir sem esmorecimento. Como temos feito e vamos continuar a fazer.

O Região de Águeda tem-se afirma do como um Jornal de referência no nosso panorama regional. Estamos cientes de que a concorrência que introduzimos no mercado nos acarretou grandes responsabilidades, mas também, sem falsa modéstia, entendemos ter vindo a corresponder a essa saudável pressão. Com efeito, é dos mais lidos e, em certas faixas etárias e sócio-culturais é mesmo o mais lido. Tais aferições, sobretudo porque têm como referência um tipo de leitores jovens, leva-nos a crer estarmos no bom caminho e a ganhar o futuro. É um estímulo importante para o nosso esforço.

Diz-me um desejo que gostarias de realizar; – Não me lembro assim de nada…; – Nada mesmo?! – Não, nada mesmo; – Então é porque já formulaste o teu desejo.” (Haruki Murakami)

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