Linha do Vouga , por António Martins (*)

Ao fim de mais de cem anos questiona-se agora o encerramento (?) da Linha do Vouga. Não sendo a primeira vez que tal acontece, porque já por outras vezes o encerramento da circulação esteve equacionado, é no entanto, agora, o desfecho do que parece ser a visão estratégica do governo relativamente ao desenvolvimento dos transportes para um futuro próximo.

A sobrevivência da linha e da mobilidade ferroviária em quase todo o seu trajecto é absolutamente defensável sob alguns pontos de vista – turístico e ambiental e, há quem diga que também energético – todavia quando nos posicionamos sob diferentes realidades históricas e económicas o caso pode apresentar contornos diferentes daí resultando também perspectivas e análises diversas.

Se me perguntarem se a Linha do Vouga deveria encerrar eu diria no imediato que não. No entanto ninguém discordará que um dos nossos grandes problemas tem sido, quase sempre, a falta de planeamento consensual no que respeita ao desenvolvimento do país, no seu todo. Nunca uma maioria qualificada de decisores esteve de acordo com aquilo que deveria ser o modelo de desenvolvimento estratégico – dos transportes – a médio prazo e, por isso mesmo, caímos no paradoxo de um governo decidir fechar o que outro, pouco tempo antes, decidira remodelar. Pelo meio ficam uns quantos negócios de milhões geridos por zelosas elites administrativas de quem, com desusada frequência vamos ouvindo falar. E nós… cá vamos todos opinando e pagando.

No entanto, como bem sabemos, estamos agora sob condições excepcionais. O endividamento diário é de tal ordem que, aliado ao baixo nível de produtividade de riqueza que vimos enfrentando nos últimos anos, obriga a que sejamos muito mais racionais em detrimento da emotividade.

Apesar dos números relativos à Linha do Vouga indiciarem algum crescimento no que toca a passageiros; constatando que há muito deixou de ser uma opção credível no transporte de mercadorias; aceitando que o encerramento entrará, de algum modo, em contra-ciclo com investimentos feitos e a fazer na cidade de Águeda; ponderados os custos correntes de manutenção e também as necessidades de investimento quer na remodelação de material circulante quer das infra-estruturas de apoio aos passageiros, nas diversas estações e apeadeiros; não negando que a linha foi, até anos recentes, um factor importantíssimo na redução do isolamento do interior ( se bem que hoje nem tanto assim será); ponderados mais uns quantos elementos de análise que não se podem descurar quando se pretende discutir a manutenção de projectos desta natureza, é lícito perguntar-se:

- Algum privado ousaria, neste momento, concessionar a Linha do Vouga? Investindo os seus próprios meios – ou mesmo absorvendo alguns fundos comunitários disponíveis mas sem recorrer aos usuais e regulares “financiamentos públicos”? Haveria massa crítica na Linha para pagar a sua sobrevivência?

Ou, então, todos aqueles que defendem a operacionalidade estão dispostos a suportá-la do seu próprio bolso, com mais impostos?

Não defendendo claramente o encerramento não me repugna aceitar uma suspensão temporária – acompanhada de soluções rodoviárias equilibradas – até que o óptimo e o possível consigam conviver à mesma mesa.

(*) Membro da Assembleia Municipal de Águeda pelo CDS/PP

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