Luís Lima: Jovem treinador valonguense fala da sua experiência na China

Luís Lima numa sessão de treino em Pequim

Luís Lima, de 26 anos, natural de Arrancada do Vouga, encontra-se na cidade de Pequim como treinador de futebol de formação desde outubro de 2016. Em entrevista ao Região de Águeda (edição e-paper e impressa de 19 de abril), fala da sua experiência na China

P> Com que diferenças culturais se deparou nesta sua experiência?
R> Existem muitas diferenças, a todos os níveis. O país não tem qualquer cultura futebolística. Não existe ainda fascínio pela modalidade e nota-se uma ausência evidente da prática deliberada. As crianças não conhecem a modalidade, não veem jogos, não identificam jogadores, não praticam. As várias academias/empresas de futebol, com metodologias e organizações autónomas, e as escolas, através do auxílio do governo e das associações de futebol de cada província, começam a fazer chegar a modalidade às crianças. Ainda assim, urge a necessidade de intervenção dos clubes profissionais e da federação chinesa de futebol ao nível da metodologia e da criação de um modelo de formação a longo prazo para os atletas chineses. Existe trabalho a ser desenvolvido, estou certo que a longo prazo irá dar frutos.

P> Para lá do futebol…
R> Clima, alimentação, idioma… tudo é diferente. As condições atmosféricas e o idioma são os maiores obstáculos para mim. A poluição atmosférica muitas vezes obriga ao uso de máscaras para minimizar os riscos de saúde e, muitas vezes, os treinos são cancelados. As escolas podem fechar quando a poluição é excessivamente alta. As pessoas, apesar de afáveis e simpáticas, são pouco extrovertidas e sentimentais. Por exemplo, somos 4 estrangeiros (2 portugueses e 2 espanhóis) e ao chegar ao escritório de manhã cumprimentávamos todos os trabalhadores e tentávamos pôr a conversa em dia; os chineses, por norma, chegavam e dirigiam-se ao seu posto de trabalho e começavam a trabalhar.

CRIANÇAS FORMATADAS

P> Considera que os jogadores chineses precisam de tudo demasiado organizado e definido?
R> As crianças chinesas, tal como todas as crianças de outras nacionalidades, precisam daquilo que uma criança necessita para evoluir, de ser estimulada. Por norma, as crianças chinesas vêm com hábitos e estímulos pouco ricos. Estão formatadas a realizar as tarefas sem ter que pensar nelas ou a tomar uma decisão. Portanto, considero que eles não precisam de tudo muito organizado ou definido, eles sentem é a necessidade de ter alguém que lhes diga o caminho e de como fazer para depois executar, à semelhança do que estão habituados a fazer na escola. O que eu faço nos treinos é precisamente o oposto do que referi anteriormente. Exijo que pensem na tarefa, que me deem respostas e que encontrem o seu caminho para realizar as tarefas.

P> Como é o quotidiano da sua equipa?
R> Uma realidade completamente diferente da que estamos habituados em Portugal. Muitas vezes não existem equipas formadas mas sim um conjunto de crianças de diferentes idades que se juntam para ter um treino lúdico. As equipas que estão formadas e mais organizadas não têm competição formal com regularidade. Aos poucos está a proceder-se à formação de equipas organizadas por escalões etários, com atletas assíduos aos treinos. Incentiva-se a transmissão de valores e atitudes, tentando criar uma identidade e um sentido de pertença ao grupo em todos os atletas para que o futebol passe a ser uma realidade nas suas vidas. De forma ainda esporádica, começam a existir mini campeonatos organizados entre as várias academias.

P> O que nos pode dizer acerca da evolução dos jogadores?
R> Gradualmente vão-se notando melhorias nos atletas. O número de horas de prática semanal ainda é muito reduzido mas com assiduidade e prática deliberada fora do horário de treino notam-se melhorias evidentes. A essência passa por despertar o seu interesse para o futebol e fazer com que não pratiquem apenas nos 90 minutos semanais de treino mas também nos seus tempos livres (que são poucos).

“O treinador é um modelo de referência”

P> Enquanto treinador, quais são os principais valores que defende?
R> Considero que o treinador de futebol tem um papel fundamental na formação integral dos jovens. O treinador é um modelo de referência. Além de futuros atletas, estamos a formas pessoas. Atualmente, enquanto treinador no futebol de formação, tento focar-me em dois aspetos que considero fundamentais: cooperação, e todos os conceitos relacionados com o trabalho em equipa; e a disciplina, com a implementação de regras e códigos de conduta que todos têm que seguir.

P> Que estratégias e ferramentas de ensino tem aplicado, de forma a envolve-los no treino?
R> No treino de jovens, geralmente, temos um conjunto de atletas que estão motivados e predispostos para a prática desportiva e por natureza já estão bastante ‘envolvidos’ no treino. Têm motivação intrínseca, gostam do que estão a fazer independentemente se são ou não recompensados. Isso é uma grande mais valia, pois é um elemento facilitador do trabalho do treinador. Considero que o ponto fundamental para o treinador é conseguir manter esta motivação e interesse pela modalidade intacta ao longo das várias etapas de formação desportiva do jovem futebolista. Progredir no ensinamento dos princípios de jogo e nas componentes técnicas e táticas do jogo, perdendo e ganhando jogos, mas nunca descurando a componente lúdica e a componente formativa do desporto.

P> Quais os seus projetos para o futuro?
R> Irei continuar na China até ao fim do ano. Pretendo neste momento continuar a rechear a ‘minha bagagem’ pessoal com experiências e formações na área para depois a médio-longo regressar à Europa e a Portugal.

 

Luís Lima, 26 anos

Luís Lima, 26 anos

Comunicar? Há o “sem dentes”, o “homem-aranha”, o “obrigado”…

P> A comunicação é essencial num treino, como ultrapassou a barreira da língua?
R> O não domínio do chinês é um dos maiores entraves; temos um ou dois tradutores, que funcionam também como treinadores adjuntos em todos os treinos. Por vezes acontecem algumas situações caricatas durante a tradução, pois falo em castelhano para o tradutor inglês ou em inglês para o Espanhol. É uma ginástica mental exigente, mas bastante engraçada. Todas as crianças na nossa academia têm um nome inglês, que é escolhido por eles próprios, de forma a facilitar a nossa comunicação com os atletas e a sua identificação. São nomes aleatórios, que nada tem a ver com o seu nome chinês, mas eles acham piada. Jerry é o nome mais comum, mas também encontramos um Thoothless (sem dentes), o XieXie (obrigado) e o Spider Man (homem-aranha).

 

De Valongo até Pequim

P> Como surgiu esta oportunidade?
R> Iniciei o ano letivo a lecionar aulas de atividade física e desportiva na EB1 de Valongo do Vouga mas sem projeto como treinador de futebol. Em outubro, um amigo também treinador de futebol falou-me de uma academia em Pequim que estava a recrutar treinadores. Pensei que seria uma excelente oportunidade e que seria enriquecedor a vários níveis. Enviei o meu currículo e fomos os dois selecionados.

ANA PAULA LIMA

 

LUIS LIMA
Estudou nas escolas de Valongo do Vouga (EB1 e EB2,3) até ao 9º ano. O gosto pelo desporto levou-o a frequentar o curso tecnológico de desporto na Escola Dr. Jaime Magalhães Lima, em Esgueira. Licenciou-se na Faculdade de Ciências de Desporto e Educação Física (FCDEF) da Universidade de Coimbra, onde concluiu o mestrado em treino desportivo para crianças e jovens. Aprofundou conhecimentos na Associação Académica de Coimbra OAF e realizou um programa ERASMUS na Hungria.
O estágio curricular na Académica “foi um momento importante para depois optar seguir carreira como treinador: tive a oportunidade de me cruzar com treinadores de excelência, que me despertaram grande interesse para continuar ligado à modalidade e me ensinaram muitíssimo”.
Jogou futebol no Valonguense e no Beira Mar. “Após a entrada na faculdade optei por não continuar a jogar futebol federado”. Após o estágio na Académica (juniores e juvenis) ingressou com adjunto nos seniores do Oliveira do Bairro (sendo ainda treinador dos juniores e coordenador técnico de futebol de formação).

Região de Águeda, edição de 19 de abril de 2017

Região de Águeda, edição de 19 de abril de 2017

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