Manuel Alegre lembrou as raízes em Pádua

Manuel Alegre recebeu "Honnoris Causa" na Universidade de Pádua (foto de Maximo Pistore)

Na cerimónia na Universidade de Pádua, que o distinguiu com o doutoramento Honoris Causa em Línguas e Literaturas Europeias e Americanas, Manuel Alegre falou da língua e da literatura portuguesa, da sua obra sem esquecer grandes referências da literatura portuguesa e universal, de poesia e da liberdade, da economia única e do futuro da Europa, da sua vida e do percurso daquela academia italiana… E de Águeda, a sua terra.

“Permitam-me que sublinhe a importância que para mim tiveram poetas desconhecidos, como os cegos que, na rua onde nasci, em Águeda, cantavam versos de amor e de tragédia, ora inspirados em factos reais ora decalcados dos rimances do cancioneiro português”, disse Manuel Alegre, para acrescentar: “Sou o que sou graças à família, ao povo, e aos poetas com quem aprendi os mistérios e os segredos da poesia até conseguir, a muito custo e depois de muitos cadernos rasgados, um verso meu e uma voz que suponho ser minha”.
Considerando ter tido uma vida “intensa, densa e tensa”, de situações “extremas” como a guerra, a prisão política e o exílio a “alegrias incomparáveis” como o 25 de Abril e a “reconquista da liberdade”, Manuel Alegre mostrou-se grato pelos prémios literários e pelas “mais altas condecorações” de Estado. “De todos os prémios o mais importante foi o reconhecimento e carinho dos meus leitores”.
Sublinhou o papel que a professora Sandra Bagno “tem dedicado” na Universidade de Pádua ao ensino da língua portuguesa “e à Cátedra a que generosamente atribuíram” o seu nome, agradecendo “a todos os professores e estudiosos que têm contribuído para a divulgação da minha obra e da de outros autores de língua portuguesa”.
O momento de atribuição do doutoramento foi presenciado, além de outras individualidades italianas e portuguesas, pelo Embaixador de Portugal, Francisco Ribeiro Telles, e o presidente do Instituto Camões, embaixador Luís Faro Ramos.
“Fui e sou, acima de tudo, um escritor e poeta cidadão; este é para mim um momento único”, reconheceu Manuel Alegre, após a distinção concedida pela Universidade de Pádua, criada em 1222.

 

LIBERTAS: DIVIDA DA UNIVERSIDADE DE PÁDUA
“A outra escala,
foi sempre a minha divida”

Manuel Alegre lembrou o reitor Concetto Marchesi que, em 1943, teve a coragem de lançar um apelo aos estudantes contra “a ofensa do fascismo e a ameaça germânica”. “LIBERTAS é a divisa desta antiquíssima e nobre Universidade; a outra escala, foi sempre a minha divisa. Por isso, ainda que pequeno perante tão grande História, confesso que de certo modo me sinto em casa”. Afirmou: “Pergunto-me, nesta hora, se sou merecedor da distinção que me é conferida. Não sei responder. Posso apenas dizer que fui sempre fiel à liberdade. Lutei por ela, vivi e sofri por ela, por ela escrevi cada verso, cada palavra. Pela liberdade do meu país e pelo direito dos povos colonizados à autodeterminação e à independência. Se é esse o sentido de tão alta distinção, então sim, sem hipocrisia, confesso que me sinto digno da divisa da Universidade de Pádua”.
Referiu-se especialmente aos seus dois primeiros livros – Praça da Canção e O Canto e as Armas – “que tiveram consequências políticas e culturais”. Disse Manuel Alegre: “Independentemente de mim, tornaram-se dois livros míticos e emblemáticos. Traziam um recado de liberdade e diziam coisas aparentemente inocentes, afirmavam que tinha havido um tempo de partir e era chegado o tempo de voltar, o que, na altura, significava a condenação da guerra colonial e a urgência de libertar o país. Era algo que estava dentro das pessoas, mas só a poesia tinha talvez o condão de revelar”.

 

DA GANÂNCIA À LITERATURA

Português é “língua de diferentes
identidades e culturas”

“Podemos talvez perguntar-nos que sentido tem a literatura neste tempo dominado pela ganância e pelo império do dinheiro”. No discurso em Pádua, Manuel Alegre levou uma reflexão crítica sobre a atualidade. “A economia única traz a lógica do pensamento único, da cultura única, da língua única”.
Acrescentou: “Há já uns anos, José Saramago disse em Madrid que as línguas se cercam umas às outras. E que o português, tal como o italiano e o francês, seriam línguas ameaçadas. Não estou de acordo. No que respeita ao português, não só porque é a terceira língua da Europa Ocidental mais falada no Mundo. Mas também porque é uma língua de grande literatura”. Língua de Camões e Fernando Pessoa, dos brasileiros Carlos Drummond de Andrade e Jorge Amado, dos angolanos Luandino Vieira e Pepetela, dos moçambicanos José Craveirinha e Mia Couto, “além de ser a língua em que o próprio Saramago ganhou o Prémio Nobel; e também a língua em que António Lobo Antunes fez uma das maiores revoluções no romance contemporâneo” – referiu.
Para Manuel Alegre, o Português é uma “língua de diferentes identidades e diferentes culturas. Essa é a riqueza de brasileiros, africanos, portugueses. Somos diferentes na mesma língua. Uma língua em que as vogais não têm todas a mesma cor. E em que as consoantes, como se sabe, em Portugal assobiam, na Africa cantam e no Brasil dançam”. É ainda – acrescentou – “uma língua onde há a mesma música de fundo: o mar. O mar dos nossos encontros, desencontros e reencontros. Viagem de nós para nós, viagem de nós para o Mundo”.

 

A “HORA DIFÍCIL” DA EUROPA
“É preciso subverter o discurso cinzento
e recuperar a força primordial da palavra”

Esta é uma hora difícil para a Europa e para cada um dos nossos países”, disse Manuel Alegre na Universidade de Pádua. “Falta grandeza, faltam estadistas, falta uma outra visão da Europa e do Mundo, faltam os largos horizontes da grande literatura”, considerou.
Para Manuel Alegre, “é preciso subverter o discurso cinzento e tecnocrático e recuperar a força primordial da palavra. As perguntas e as respostas não estão nos manuais de economia”, recordando pensadores e escritores que ficaram como referências da história da humanidade para dizer que aquelas “talvez se encontrem” nestes.
“Que podemos nós fazer em tempo de indigência, como perguntava Hölderlin? O que podemos fazer é o que fazia o chaman das sociedades primitivas: repetir ritmicamente palavras mágicas, esconjurar a crise, reabilitar a poesia e a vida, tirar a pedra do meio do caminho”.

(trabalho completo na edição impressa e e-paper do Região de Águeda)

Foto: Maximo Pistore

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