Miralago: Ex-trabalhador fala do fim da empresa e do que conduziu ao desfecho

Carlos Marques trabalhou durante três décadas na Miralago, empresa de referência das duas rodas que fechou portas

Carlos Marques trabalhou durante três décadas na Miralago. Diz que apostou as “fichas” todas na empresa. Agora assiste ao seu fim, como muitos outros, com revolta e tristeza por o encerramento de “uma empresa icónica de Águeda passar despercebido à maioria das pessoas”. “A Miralago marcou a história da indústria das duas rodas em Portugal e, por mais que se tente que o seu encerramento passe despercebido, a Miralago jamais será esquecida”, diz. O relato na primeira pessoa de um antigo trabalhador e que traduz o sentimento de tantos outros

P> Quando começou a trabalhar na Miralago?
R> A minha atividade na Miralago, como desenhador/projetista, iniciou-se no dia 10 de outubro de 1988 e durou até ao dia 3 de abril de 2019, altura em que rescindi o contrato, com três meses de salários em atraso. Não se pense que os colaboradores da empresa quando tiveram os três meses de salários em atraso, foram logo rescindir os seus contratos. Nada disso. Os colaboradores aceitaram muitos meios salários, muitos quartos de salário, deram à administração todas as hipóteses para resolverem a situação, mas as soluções não apareciam, as promessas aos colaboradores eram sempre falsas e a falta de trabalho era uma evidência. Eu, por exemplo, estive perto de um ano sem qualquer projeto para desenvolver. A “bolha” rebentou, não era humanamente possível aguentar mais… A rescisão aconteceu no dia 3 de abril de 2019.

P> Como era a empresa quando começou a trabalhar lá?
R> Em 1988, a empresa prometia. A sua dimensão era confinada praticamente à nave principal, onde se concentravam todas as secções da empresa, as prensas, a cromagem e zincagem (manuais), as máquinas de furar, os tornos automáticos, as brochadoras, o forjamento a frio (a Miralago era das poucas empresas do país que dominava a tecnologia do forjamento a frio), a montagem de rodas livres (éramos dos únicos na Europa que fabricávamos as rodas por inteiro, os componentes todos… acho que paramos nas 7 velocidades), as rodas pedaleiras, as cremalheiras e os pinhões para motos e motorizadas, os quadros para bicicletas, as forquetas, os guiadores, os espigões de selim e de guiador, a secção de solda (que ocupava quase metade da empresa), a pintura, a serralharia (onde se executavam os protótipos das novas bicicletas) e a ferramentaria (onde se construíam as ferramentas e moldes de que a empresa precisava para executar os produtos a que se propunha).
Nessa altura, a Miralago tinha um segmento de produtos que começava a desenvolver e que contribuiu grandemente para o seu crescimento e para a divulgação do seu nome na Europa, no norte de África, Ásia e afins, que foram as bicicletas estáticas e aparelhos de fitness.

P> Como olha para o percurso da empresa desde aí?
R> Falar no percurso da Miralago de 1988 a 2015 é falar de evolução e crescimento constante e sustentado. Ao longo destes 27 anos, a Miralago cresceu a nível de instalações e secções. A Miralago desenvolveu o seu departamento de qualidade, com instalações adequadas e aquisição de máquinas e aparelhos de medição, nomeadamente uma máquina de medição tridimensional.
Foi uma aposta ganha a criação do ID (Investigação e Desenvolvimento). Foram adquiridas novas ferramentas de Cad e Cam, que valorizaram em muito o trabalho. Ali eram desenvolvidos os novos produtos, bicicletas convencionais, aparelhos de fitness e bicicletas estáticas, ferramentas, máquinas, moldes de plástico e gabaris de solda. Foram comprados robots de soldadura. A Miralago apostou fortemente num sistema informático de gestão e planeamento.
Tinha instalações de apoio aos colaboradores, o refeitório, a cozinha, os wc`s. Sem querer menosprezar qualquer cliente da Miralago, tenho que lembrar um cliente que a fez crescer imenso tecnologicamente… a MBK/YAMAHA.

“98% DOSFUNCIONÁRIOS FORAM LOGO ABSORVIDOS PELA INDÚSTRIA DAS DUAS RODAS”

P> Quantos trabalhadores tinha a Miralago nessa altura?
R> O número de colaboradores era muito variável, eu diria entre 90 a 120 pessoas.

P> Que impacto teve, na sua opinião, o encerramento da empresa na vida dos seus funcionários e do concelho?
R> Para os mais novos foi uma oportunidade de enveredarem por outros caminhos profissionais. 98% dos funcionários têm novos empregos, foram logo absorvidos pela indústria das duas rodas… a Miralago sempre foi uma “escola” que formou bons alunos. Para os mais velhos, a situação tornou-se mais complicada. Os ordenados que usufruíam já eram consideráveis, a idade não ajuda, a experiência não é garantia de nada. A solução passa pela reconversão da carreira. No geral, a maioria dos funcionários ultrapassou a situação e segue a sua vida normalmente. Fico triste por ver que o encerramento de uma empresa “ícone” do concelho de Águeda passa despercebido à maioria das pessoas. A Miralago marcou a história da indústria das duas rodas em Portugal e, por mais que tente passar despercebido o seu encerramento, a Miralago jamais será esquecida.

LEILÃO: “QUE ACABE DEPRESSA”

P> Como vê agora o leilão que se vai realizar na sexta-feira (dia 7)?
R> Como o fim. A Miralago termina nesse dia!… Que acabe depressa. Águeda nunca mais será a mesma para mim!

 

O QUE FALHOU?
“Avisámos que não tinham arcaboiço para cumprir contrato com a EMEL”

P> O que é que acha que falhou em todo este processo?
R> Acima de tudo a arrogância com que os novos administradores enfrentaram a Miralago e os seus colaboradores. A Miralago possuía um know-how de fazer inveja a muitas empresas. Nunca deviam ter tratado os colaboradores da Miralago (muitos deles com mais de 10, 20 ou 30 anos de empresa) como elementos descartáveis, movendo-os de posição e para posições que eles não dominavam, tal e qual peças de xadrez. Não se podem tirar elementos que sempre acompanharam a produção, para posições de secretária. Foram feitas contratações dúbias de elementos considerados altos profissionais da indústria automóvel para substituir os colaboradores que durante anos geriram a Miralago. Nunca se viu alguma coisa que fizessem para acrescentar valor à Miralago. Esqueceram-se de que a Miralago fabricava componentes para bicicletas, motos e não automóveis.
Deslocalizaram a produção para outras empresas, deixando os colaboradores da Miralago sem ter trabalho, embora tivessem a tecnologia toda para a produção.
E para rematar, ganhou o “euromilhões” (a Órbita) ao vencer o concurso para a Gira, o sistema de bicicletas partilhadas de Lisboa (um contrato no valor de 23 milhões de euros, com a validade de oito anos). Era muito dinheiro para ser gerido por uma empresa que não tinha condições de cumprir o contrato com a EMEL. Nunca teve! Nem tecnologia, nem espaço, nem colaboradores suficientes. Não tinham “arcaboiço” para tal empreitada! Os antigos colaboradores tentaram avisar, mas ninguém ouviu! O fim ficou traçado nesse momento!

 

O DESFECHO ESPERADO
“No dia da apresentação dos novos administradores, percebi que a empresa ia morrer”

P> Com que sentimento viveu o processo de venda da empresa e tudo o que sucedeu?
R> Com um misto de traição, revolta e impotência. Eu (e mais alguns) fui dos que apostei todas as “fichas” na Miralago. Gostava de trabalhar na Miralago!… Era a minha “casa”! Quando devia ter saído para outra empresa, não saí, fiquei… a empresa, pelo seu historial, garantia-me a segurança necessária… Foi uma má aposta? Se calhar foi!… Mas a vida é feita de apostas e oportunidades e eu dei-me mal… Fui traído pelas circunstâncias.

P> Quando é que percebeu que a Miralago iria ter este desfecho?
R> Alguns meses, anos (os 2 anos antes da venda) … Sem querer ser pretensioso ou arrogante, diria que foi no dia de apresentação dos novos administradores. Depois de os ouvir falar, perante todos os colaboradores, afirmando que iriam modernizar a empresa, que a empresa estava obsoleta, que os produtos que vendia eram velhos e pouco atraentes, comentei para o meu colega mais próximo: “Está assinada a sentença de morte da Miralago, não dura dois anos!”… Durou quatro, mas sabe Deus como! O discurso foi mau demais para ser verdade!

(entrevista publicada na edição de 5 de fevereiro de 2020 – versões e-paper e impressa)
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