Nuno Lobo: Arquitecto aguedense conta experiência de trabalho na China

 

Nuno Lobo é um jovem arquitecto aguedense que decidiu partir à aventura e foi trabalhar para a China, num gabinete de arquitectura. Em entrevista ao RA, Nuno Lobo fala dessa sua experiência, do país que encontrou, das diferenças culturais e gastronómicas e do desenvolvimento do país que hoje se afirma como uma importante potência económica

 

P> Como é que surgiu a oportunidade de trabalhar na China?

R>

Surge num contexto de início de carreira, de procura de trabalho e de uma experiência motivante. Fiz uma pesquisa na Internet, enviei alguns currículos e da China veio uma das primeiras respostas. Convidaram-me para ir por um período experimental de três meses e eu aceitei o desafio e fui trabalhar para um gabinete de arquitectura chinês. Numa primeira fase, estive três meses, depois vim a Portugal e regressei novamente à China porque senti que três meses foi muito pouco.

 

P> A hipótese de ir para a China trabalhar mais tempo está afastada?

R>

Não é fácil, não só por razões burocráticas, mas também pelas diferenças culturais existentes.

 

P> Pode falar-nos um pouco dessas diferenças culturais? Foi um choque para si?

R>

Acho que os Jogos Olímpicos mudaram a ideia que as pessoas tinham do país. As pessoas pensam que é um país pouco desenvolvido… recordo-me que o maior impacto que tive quando cheguei foi ver o crescimento e a dimensão do país e a evolução que está a ter.

 

P> Tinha uma imagem muito diferente da China antes de conhecer o país?

R>

Os Jogos Olímpicos, na minha opinião, foram uma manobra de marketing não só internacional mas também interno. Foi uma necessidade de afirmação do próprio país como uma potência. Há claro a questão social e a liberdade de expressão…

P> De que forma se sente essa falta de liberdade de expressão?

R>

Não se sente de forma muito perceptível. Sentimos isso em pequenos gestos do dia-a-dia. Não nos impede de ter uma vida normal… Sente-se na Internet, quando não conseguimos aceder a determinados sites e a toda a informação. Há um controle mais ou menos assumido apesar de eles não assumirem que o fazem. Consta-se que há cerca de 30 mil “net polícias” a verificar todos os sites que são acedidos. Acontecia-me entrar no google e não conseguir abrir um site ou aceder a uma informação. Muitas vezes o que revoltava mais era estarmos a fazer pesquisa para trabalhos e não conseguirmos. Era nisso que sentíamos esse controle. Também se sentia na forma como eles vigiam toda a população. Os “delegados de bairro” são muitas vezes os nossos vizinhos. Ao nível de segurança, é perfeitamente tranquilo, nunca enfrentei problema ou ameaça.

P> Como é que uma pessoa que não está habituada a esse controle lida com isso?

R>

No início o impacto é bastante forte. Vemos polícias e segurança em quase todas as esquinas, mas depois habituamo-nos e já encaramos isso com alguma naturalidade.

 

Experiência gastronómica

 

P> E como é que foi a experiência gastronómica?

R>

Antes de ir, a comida era uma das minhas principais preocupações, mas depois vi que podia sempre recorrer ao fast food… O facto de trabalhar unicamente com chineses fez com que tivesse partilhado muitos dos seus hábitos. Ajudou-me a uma maior integração e conhecimento da cultura chinesa.

 

P> O que é que experimentou mais invulgar?

R>

Experimentei carne de cobra. Não se pode dizer que tenha sido uma boa experiência. Mas pude perceber que isso não é o que os chineses comem habitualmente. Muitos pratos funcionam como atracção turística, mas não fazem parte dos hábitos do dia-a-dia dos chineses. Não é algo que uma pessoa peça habitualmente nos restaurantes. De resto a comida inclui muitos vegetais. É uma comida normal, a confecção é que acaba por ser diferente. Os vegetais, o arroz, a massa acabam por estar sempre presente.

P> As ideias preconcebidas que tinha corresponderam à realidade que encontrou na China?

R>

A impressão que tenho é que a capacidade de trabalho, humana, é muito grande… mas neste momento eles começam a tentar adaptar-se a novos processos. Enquanto que em Portugal duas pessoas fazem um trabalho, lá têm 10 pessoas a fazer o mesmo trabalho. A ideia que temos aqui é que eles trabalham muito; eu nunca senti que eles trabalhassem muito. Não trabalham mais do que nós. Nós trabalhamos mais horas. A mão de obra continua a ser muito barata, essa é uma das grandes vantagens deles, o custo de vida é baixo, conseguem viver com muito pouco dinheiro.

Estive a viver no centro da cidade, num T1, e pagava uma renda normal, de quase 300 euros, mas tinha colegas que viviam nos arredores da cidade em T2 espaçosos com uma renda de 80 euros. Mas viver nos arredores da cidade implicava a deslocação de uma hora para chegar ao centro. Esse foi um dos maiores impactos que senti, a escala e a dimensão da cidade.

 

P> Aprendeu a falar a língua chinesa?

R>

Conseguir aprender alguma coisa fez parte dessa tentativa de adaptação e integração. Consegui aprender algumas palavras chinesas, o suficiente para estabelecer uma comunicação básica, para pedir isto ou aquilo e deslocar-me. Aprender chinês tornou-se essencial. Só saber inglês não era suficiente. Com os taxistas era quando surgiam as comunicações mais complicadas, quando não sabia nada de chinês. Muitas vezes pensávamos que estávamos a comunicar, mas depois víamos que ainda não tínhamos atingido o tom correcto para nos fazermos entender.

 

P> Quais os seus projectos para o futuro?

R>

Cheguei há poucas semanas e a minha ideia é conseguir trabalho aqui. Já tenho em perspectiva um projecto, que se vai iniciar agora no mês de Novembro. Quero também trabalhar num estudo que comecei antes de ir para a China e manter sempre o contacto com o gabinete chinês onde estive a trabalhar.

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1 comentário;

  1. olinda graça said:

    Muitos Parabéns ao jovem arquitecto!Desejando-lhe as maiores sortes profissionais e pessoais.

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