O dia em que a ‘Volta’ terminou em Águeda

Página da reportagem de “A Capital”, extinto jornal português, sobre a etapa de Águeda, onde é possível ver a multidão junto ao pódio na Praça Dr. Breda

Até 1977, a Volta a Portugal em bicicleta havia terminado sempre em Lisboa ou no Porto. Águeda, em agosto de 1978, mudou o paradigma ao receber o contrarrelógio individual de 31,2 kms, que finalizou a principal competição velocipédica portuguesa longe das duas principais cidades. Vai fazer 40 anos

Percurso da Volta a Portugal de 1978: um prólogo e 18 etapas

Percurso da Volta a Portugal de 1978: um prólogo e 18 etapas

Capital das bicicletas, dizia-se que com 99% da produção de bicicletas em Portugal, Águeda recebeu com orgulho o final da 40.ª Volta a Portugal. Com partida e chegada à praça Dr. António Breda, o contrarrelógio final percorreu o município. Uma multidão acorreu ao grande acontecimento – era a primeira vez que a competição terminava fora de Lisboa ou Porto. No dia 20 de agosto de 1978.
O grande prémio ABIMOTA tinha começado no ano anterior e acelerou o sonho. Um grupo de pessoas ligadas à ABIMOTA – Júlio Dinis Saraiva, Aurélio Ferreira, Filipe Coelho e José Maria Marques – negociaram com a Federação Portuguesa de Ciclismo, liderada então por Mário Ferreira, para que a ambição se concretizasse. Conseguiram-no.
Com a colaboração de Jorge Lara, diretor da prova, foram delineados os pormenores técnicos do que viria a ser um contrarrelógio individual. A apresentação oficial decorreu na Miralago, a 14 de agosto de 1978.

UMA VITELA DE AGUADA DE CIMA

Os apoios e a colaboração – de entidades oficiais, de empresas e de pessoas que se voluntariaram – associaram-se a um grande acontecimento de afirmação. Águeda era indústria; Águeda era orgulho!
Uma história curiosa. Na praça Dr. António Breda, com a configuração de faixas de rodagem separadas por um jardim central e uma rotunda no centro, em frente à avenida Eugénio Ribeiro e à entrada para a escola secundária, foram erguidas bancadas desmontáveis. Era a linha de meta. Dali partiam e ali chegavam os ciclistas, um a um. Grande parte das bancadas vieram de Ovar, serviam o tradicional Carnaval. Foram disponibilizadas gratuitamente. As empresas de Águeda asseguraram o transporte nas suas camionetas.
Calcula-se que em Águeda terão estado cerca de 50 mil pessoas. Na então vila e ao longo do percurso. “A Junta de Freguesia de Aguada de Cima criou um prémio particular para o ciclista vencedor”, lembra Júlio Dinis Saraiva. Que prémio? “Uma vitela!” Mas houve mais (leia peça em separado).

Praça Dr. António Breda em 1978, de onde partiram e aonde chegaram os ciclistas no contrarrelógio final

Praça Dr. António Breda em 1978, de onde partiram e aonde chegaram os ciclistas no contrarrelógio final

VITÓRIA PARA CICLISTA DE AVANCA

O final da Volta teve um caso de doping. Um vencedor desclassificado: o consagrado Fernando Mendes, feirense de Rio Meão que corria pelo FC Porto e havia estado na sombra de Joaquim Agostinho durante anos. E um vencedor seria proclamado: Belmiro Silva, um ex-Sangalhos que representava o Coimbrões.
O corredor era de Avanca. “Os pais tinham uma exploração de vacas leiteiras”, lembra Júlio Dinis Saraiva. Animado pela perspetiva de ser o vencedor, Belmiro Silva fez o melhor tempo no crono aguedense: 47m23s. Suplantou Américo Silva (Braga), hoje diretor técnico da Efapel, por três segundos, e Firmino Bernardino (Lousa) por 15 segundos. Fernando Mendes seria sétimo, a 55 segundos, penalizado certamente pelo ambiente negativo gerado à sua volta.
Corriam os irmãos Sousa Santos, Joaquim Andrade, Francisco Miranda, José Luís Pacheco, Armindo Lúcio, Adelino Teixeira, Alexandre Ruas, Venceslau Fernandes, entre outros. O Sangalhos ainda corria, patrocinado pela Órbita, mas teve uma prestação discreta – Herculano Silva foi o melhor (26º) no contrarrelógio e Luís Gregório (33º) o mais bem colocado na geral final -, numa competição que incluía equipa como FC Porto/Sandeman, Coimbrões/Arbo, Lousa/Trin­aran­jus (vencedora coletivamente), Coelima, Braga/Lameirinho, Bombarral/Uniroyal, Águias/Clok, Benfica, Dramático, São Jorge/Manique e Campinense/ Almodovar.
Fernando Mendes tinha gasto 57h48m25s e fez a festa final no pódio em Águeda. Belmiro Silva, o vencedor após a desclassificação daquele, cumpriu a Volta a Portugal em 57h52m32s, menos 37 segundos que Armindo Lúcio (Lousa) e 1m37s que Luís Teixeira (Coelima). Alexandre Ruas (Águias), Américo Silva (Braga), Firmino Bernardino (Lousa), Adelino Texeira (Lousa), João Costa (Campinense), Manuel Oliveira (Benfica) e Joaquim Sousa Santos (Bombarral) fizeram top 10.
No pódio, caras bonitas, trajando roupas do folclore aguedense, dividiam as atenções com os protagonistas do espetáculo velocipédico.

Programa festivo
e 190 contos de prémios
oferecidos por Águeda

Houve um programa festivo no dia 20 de agosto de 1978, etapa final da 40ª Volta a Portugal em bicicleta. A partir das 14 horas houve desfile e atuação da Fanfarra dos Bombeiros Voluntários de Águeda, Banda Nova de Fermentelos, Grupo Típico O Cancioneiro de Águeda, Grupo Folclórico da Região do Vouga, Grupo Folclórico Os Cruzeiros e Rancho Regional do Cabo.
As coletividades desfilaram: Sport Algés e Águeda, Clube de Campismo e Caravanismo de Águeda, Orfeão de Águeda, Associação Académica de Águeda, Recreio Desportivo de Águeda e Ginásio Clube de Águeda.
O encerramento do desfile foi ao som de “Os Marretas do Rio Douro” com os seus 30 bombos e com solta de pombos e largada de balões. Uma girândola de morteiros anunciou a partida do primeiro ciclista para o contrarrelógio, às 16h30.

QUEM NÃO LEVOU PRÉMIO?

Além dos prémios oficiais da Volta a Portugal, Águeda contribuiu com prémios no valor de 190 contos (quase mil euros). Em Belazaima do Chão, o ciclista com o melhor tempo na passagem ganhou 2.500 escudos e o segundo 1.500 escudos. Em Aguada de Cima, a Junta ofereceu uma vitela, no valor de 12 mil escudos, ao vencedor da Volta, além de outros prémios de passagem na meta (prémio Antonino Baptista), pecuniários e em produtos, como um atrelado Empal, conjuntos de garrafeira e camisas Condal, totalizando 30 mil escudos.
O vencedor da Volta ainda levou uma motorizada Confersil RS Sport no valor de 42 mil escudos. Para clubes (até 10) e melhores da etapa (até ao 55º!) houve prémios como jarrões de faiança, selins Mecel, travões Lusito, faróis MIL, carro de compras Ucal, rodas Miralago, capacetes EFS, torradeira EMHA, camisas Souto Rio, mudanças Frefil, cestos de compras Mafirol, campainhas para bicicleta Ivol, buzinas Pep… Ainda uma motorizada Famel para o vencedor da etapa (no valor de 20 mil escudos) e bicicletas Órbita, Ucal, Sirla e Esmaltina (entre 17.500 escudos e 5.500 escudos) para os ciclistas classificados entre o segundo e o quinto lugar no contrarrelógio.

AUGUSTO SEMEDO

leia trabalho completo na edição da semana – versões e-paper e impressa – de 27 de dezembro de 2017

Foto de capa: Página da reportagem de “A Capital”, extinto jornal português, sobre a etapa de Águeda, onde é possível ver a multidão junto ao pódio na Praça Dr. Breda
A reportagem de A Bola publicada em 18 de fevereiro de 1978, seis meses antes do final da Volta

A reportagem de A Bola publicada em 18 de fevereiro de 1978, seis meses antes do final da Volta

 

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