O dossiê «reality shows» , por José Manuel Alho (*)

José Manuel Alho

Por maior que seja a vontade de ignorar o assunto, afigura-se incontornável enfrentar as evidências: os «reality shows» invadiram, para ficar, o nosso quotidiano televisivo.

Bastas vezes dou por mim a perguntar-me sobre as razões que explicarão tamanha recetividade. Sem esforço, compreende-se que, no essencial, os telespectadores cederão facilmente à curiosidade de ver a intimidade do outro, de uma forma que presumem real, mas com o salero de poderem exercer algum controlo sobre as vidas dos participantes, sobretudo através de sondagens ou votações onde o saldo do telemóvel é o alvo. Se calhar, só por isso se entenderá que, para algumas pessoas, seja quase impossível deixar de assistir a um único episódio do concurso que acompanham.

Com efeito, vivemos um tempo em que as pessoas estão cada vez mais carentes e sequiosas de reconhecimento e profundamente iludidas pelas honrarias voláteis desta sociedade consumista. Por isso, um show de realidade, mesmo que dissimulada, surge como mais uma forma de expressão, de alienação e de projeção. E projeção não só de imagem de quem se exibe, que renuncia à sua intimidade e privacidade, mas também no sentido de projetar naquelas pessoas igualmente comuns, que passam a fazer parte do quotidiano de cada telespectador, os seus próprios medos, angústias, frustrações e ambições.

Em consequência, o encanto e a sedução do «reality show» implicaram um novo formato televisivo. Assomou-se o paradigma em que a vida real virou entretenimento público e o que até então era privado, torna-se público e sujeito aos mais diversos exames e sentenças. Os protagonistas são, em regra, indivíduos comuns que aceitam, com acrítico despojamento, abdicar de muitos dos seus direitos fundamentais em nome de uma promoção obviamente efémera, ainda que cumulada com um simbólico prémio pecuniário.

A coberto do imperativo de assegurar a sua própria viabilidade económica, alguns canais de televisão estimulam assim a coisificação do ser humano. É nesse enquadramento que se consente a violação dos direitos fundamentais, abusando da liberdade de programação que lhes é outorgada sob a forma de licenciamento público. Parece valer tudo para, em horários inapropriadamente nobres, atrair telespectadores ávidos pela espionagem da vida privada alheia, justificando-se tal cometimento, que excede largamente os limites do razoável, pela suposta representação de máximas da realidade contemporânea. Socorrendo-se do argumento de censura, invariavelmente repudiado por qualquer cidadão, seja ele esclarecido ou não, as televisões logram impor qualquer formato de programa, desviando-se ostensivamente da sua função essencial, centrada na informação e na cultura.

Por outro lado, cumpre reconhecer que a sociedade consumista patrocina esta sobre-exposição. As pessoas aceitam promover-se como mercadorias, com o propósito de obterem o reconhecimento e a aprovação dos outros.

Acho intolerável que a corrida pelas audiências e, consequentemente, pela sobrevivência financeira, transforme o que deveria ser o palco da informação, da educação e da cultura num entreposto exclusivamente comercial, onde um leque de seres humanos se degradam ao nível, ao estatuto de meros produtos transacionáveis no mercado das emoções. Devo até confessar que me choca a escalada, aparentemente fácil e escorreita, com que não só se exibe a imagem do indivíduo, como também se pode ridicularizá-lo, desafiando os seus limites físicos e emocionais. Mais: expondo-o ao risco e à derradeira fronteira da sua integridade, extravasando para o efeito os limites da razoabilidade e da proporcionalidade.

Será que serão assim tão poucos aqueles que se indignam com o facto de, a cada nova versão de «reality show» que surge, aumentar-se o grau de dificuldade dos supostos desafios para avaliar os limites humanos e assim saciar a sede voyeurista do telespectador? É que, às tantas, os candidatos a um qualquer prémio final já estão a ser tratados como verdadeiras «cobaias» para gáudio estupidificante da populaça!

Tudo tem o seu lugar. Tudo tem o seu público. Mas entendo que se deve instar as entidades reguladoras das televisões licenciadas em Portugal – cuja ação parece pouco escrutinada – a aferir o verdadeiro impacto e a real repercussão de programas que mascaram a realidade e empobrecem culturalmente um povo, que não mais exige e não mais questiona. Talvez fosse a postura mais avisada antes destas ofertas, que decorrem em roda livre, alcançarem proporções tragicamente descontroladas. Nesta, como noutras matérias, o recurso aos Tribunais é – e será sempre – tardio.

Haja alguém que se importe com estas questões.

(*) – Professor. Colaborador do Região de Águeda

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