“O que será feito deste mundo quando tivermos medo de nos ajudar uns aos outros?” – Miguel Duarte, voluntário no Mediterrâneo

Miguel Duarte numa missão de resgate no Iuventa

“Atuei de acordo com o que considero eticamente correto com o objetivo de salvar tantas vidas quanto possível”, disse Miguel Duarte, acusado pelas autoridades italianas de imigração ilegal. Em entrevista ao Região de Águeda, este neto de aguedense, que se voluntariou em ações de resgate no Mediterrâneo, considera que se trata de uma “acusação séria, (…) um pouco alarmante” e que se está a “assistir a uma crescente criminalização das ONG”

P> A recente acusação de imigração ilegal, por parte das autoridades italianas, preocupa-te?
R> É uma acusação séria e, como tal, um pouco alarmante. No entanto estou ciente de que, em tudo o que fiz, atuei de acordo com o que considero eticamente correto com o objetivo de salvar tantas vidas quanto possível. Estou confiante de que as autoridades italianas vão chegar a essa conclusão mais cedo ou mais tarde. Estas acusações preocupam-me mais pelo que significam em termos de política europeia. São um sinal claro de uma longa linha de esforços com o objetivo de criminalizar a ajuda humanitária e a solidariedade em geral. Alguém mais conhecedor do que eu disse-me: “O dia em que uma pessoa vir outra a afogar-se e decidir não ajudar por medo de ação legal contra si é o dia em que passamos a viver num mundo diferente”.
P> Em que se fundamentam as acusações?
R> Prefiro não discutir detalhes da investigação.

“ESTAMOS A CRIAR MEDO NA PRÓXIMA GERAÇÃO DE VOLUNTÁRIOS”

P> Se esta é uma acusação política, esperas uma defesa igualmente política? Tens recebido apoio por parte das autoridades portuguesas e europeias, por exemplo?
R> Recebemos apoio de muitas organizações e indivíduos; mas nada ainda de instituições oficiais. No entanto, é de notar que o caso está ainda na fase das investigações preliminares e não foi feita uma acusação formal.
P> Há mais casos semelhantes entre equipas de resgate?
R> Infelizmente, há alguns casos recentes na justiça italiana e, para além de nós os 10, há membros de outras organizações que estão na mesma situação. E não é só em Itália. Na Grécia estamos a assistir a uma crescente criminalização das ONG e sei de vários voluntários que já foram presos enquanto esperam julgamento. Em Malta os navios de resgate e aviões de busca estão impedidos de operar por questões puramente burocráticas. Gostava muito de poder dizer que somos os únicos, mas há cada vez mais gente na nossa situação. As implicações disto são tremendas. Estamos a criar medo na próxima geração de voluntários. O que será feito deste mundo quando tivermos medo de nos ajudar uns aos outros?

Iuventa, navio pertencente à ONG alemã Jugend Rettet

Iuventa, navio pertencente à ONG alemã Jugend Rettet

“O desespero e o pânico são avassaladores!…Sem ver, não se tem a noção do sofrimento que se vive no mar”

“Nunca fiz nada de tão certo!”, sublinha Miguel Duarte sobre a opção de se voluntariar em auxílio dos migrantes no Mediterrâneo. Desempenhou vários papéis nas missões de resgate, treinou-se mas em situações extremas não há nada que “prepare completamente”. “Eu diria que muitas vezes correu mal”. E conta uma história que salvou 113 vidas mas perdeu uma criança de 3 anos e a mãe. “Nada apaga estas memórias”.

P> O que te levou a voluntariar numa ONG alemã?
R> Quando estava a fazer o mestrado segui atentamente os desenvolvimentos da guerra da Síria e da crise de refugiados, de forma que, quando acabei, só pensava em ajudar de alguma forma. Nessa altura apresentaram-me a uma ONG alemã (Jugend Rettet) que estava a desenvolver um trabalho espantoso no mar Mediterrâneo. Não pensei duas vezes, candidatei-me e convidaram-me para fazer uma missão. Via e vejo neste trabalho uma absoluta necessidade. Nunca fiz nada de tão certo! Na verdade considero que, como jovem europeu sem grandes responsabilidades como contas para pagar ou uma família para sustentar, ajudar não passa da minha responsabilidade.

“NÃO HÁ NADA QUE NOS PREPARE COMPLETAMENTE PARA ENFRENTAR AQUELA SITUAÇÃO”

"Nada apaga estas memórias", diz Miguel Duarte (foto: CatamaranFilms)

“Nada apaga estas memórias”, diz Miguel Duarte (foto: CatamaranFilms)

P> Fazias parte da tripulação e até colaboraste na sua reparação. Quais eram as tuas tarefas na organização e durante as missões de resgate?
R> Durante as missões de resgate tive vários papéis. Geri o convés, cuidei das pessoas a bordo e fui aquilo a que se chama “primeiro contacto”, na proa de um dos nossos speed-boats com o objetivo de estabelecer contacto com as pessoas, distribuir coletes salva-vidas e ajudar as pessoas a passar para bordo.
P> Fizeste formação?
R> Temos treinos antes das missões, durante os quais aprendi muito. No entanto, considero que aprendi ainda mais “com as mãos na massa”. Não há nada que nos prepare completamente para enfrentar aquela situação. O desespero e o pânico são avassaladores e nunca tive nenhuma experiência em terra que sequer chegasse perto de me fazer sentir o que senti a bordo. Entre missões temos também algum apoio psicológico para garantir que não sofreremos de algum tipo de stress pós-traumático.

“EQUIPAS DE RESGATE SÃO COMPLETAMENTE INSUFICIENTES PARA LIDAR COM ESTA CRISE”

P> Os riscos eram certamente acautelados mas o desespero das pessoas seria certamente difícil de controlar na hora do resgate. Alguma vez correu mal?
R> Eu diria que muitas vezes correu mal. É preciso entender que as equipas de resgate que ali operavam são completamente insuficientes para lidar com esta crise. Muitas vezes chegámos ao local tarde demais e encontrávamos um barco de borracha furado com pessoas a cair para dentro de água. Nestas situações, mesmo que tenhamos um desempenho técnico exemplar, é muito difícil sermos suficientemente rápidos. Foi com uma tristeza profunda que várias vezes constatámos que não chegámos a tempo e perdemos vidas. Nunca me vou esquecer de uma noite em que resgatámos 113 pessoas de um barco furado num mar revolto e nos apercebemos que, segundos antes de chegarmos, uma menina de 3 anos tinha caído para dentro de água seguida de imediato pela sua mãe. Nunca as encontrámos. Nada apaga estas memórias.

P> Que imagens ficaram desta experiência que o comum do cidadão não consegue observar ou compreender?
R> Acima de tudo parece-me que, sem ver, uma pessoa não consegue ter noção do sofrimento que se vive no mar. Do absoluto desespero em que as pessoas se atiram com tudo o que têm para barcos de má qualidade com elevada probabilidade de não voltarem a pisar terra. O medo pelas próprias vidas e pelas dos filhos, a dor das experiências que os fizeram fugir do seu país e o perigo constante da vida na Líbia estão, naquele momento, presentes nas caras das pessoas. Penso que observar essas caras mudaria muitas opiniões acerca da aceitação dos refugiados.
P> Voltarias, ou voltarás, a ter a mesma opção? Há outras opções no horizonte?
R> Voltaria para o mar amanhã se isso me fosse possível. Não consigo imaginar uma ocupação mais útil que essa. Como neste momento isso é impossível tenho que encontrar uma forma de ajudar em terra. Penso que, nesse sentido, ainda estou à procura do meu lugar.

A instabilidade política, a venda de armas, os regimes autoritários, o tráfico humano…

P> As pessoas pagam muito na origem e chegam em condições miseráveis. Como poderia a Europa lidar de forma diferente com este drama?
R> Não creio que haja uma solução única para este problema mas há inúmeras formas de combatê-lo. É óbvio para quase toda a gente que a situação ideal seria que as pessoas pudessem ficar em segurança nos seus próprios países. Para isso é necessário não contribuir para o aumento da instabilidade política. A venda de armas ao nível mundial é liderada por países europeus e pelos EUA e é notório o apoio destes a regimes autoritários ou instáveis como é o caso da Turquia e da Líbia. Em segundo lugar é necessário oferecer uma resposta a estas pessoas que se dirigem para a Europa em pequenos barcos. Estas pessoas deviam poder pedir asilo sem ter que se aventurar em travessias do deserto e do mar e sem ter que recorrer a negócios de tráfico humano. Finalmente, tem que haver um programa de resgate marítimo que acabe com a catástrofe humanitária a que assistimos às nossas portas nos últimos anos. Criminalizar o trabalho de ONG não só é mais um passo para não ajudar as pessoas como é um retrocesso no que poderia ser um caminho para solucionar o problema.

 

Foi de férias ao Camboja e angariou fundos para a construção de uma sala de aula

Miguel Duarte tinha 19 anos quando arrancou com o irmão mais velho para a Tailândia, “numa viagem de um mês e meio que passaria por vários países do sudeste asiático”. A experiência revelar-se-ia surpreendente: “No Camboja, ao passarmos por uma aldeia flutuante (uma aldeia inteira construída sobre estacas para manter as casas suficientemente altas na época das cheias) conhecemos um professor de inglês que lá vivia e que nos recebeu de braços abertos. Em conversa soubemos que ele ensinava inglês às crianças pobres da aldeia dispondo apenas de um quadro de giz na parede de fora de casa, uns livros e uns banquinhos. Os miúdos assistiam silenciosamente às aulas todos os dias. Quando chegámos a Portugal decidimos montar um projeto de angariação de fundos que resultou na construção de uma pequena sala de aula na aldeia. Tanto nós como o professor ficámos muito contentes com o resultado. Gostava muito de lá voltar um dia para ver como é que as coisas mudaram nos últimos 7 anos”.

Miguel Duarte

Miguel Duarte

QUEM É?
Miguel Duarte: Neto
do sobrinho-neto de Marques de Castilho

Miguel Castilho Soares Duarte tem 25 anos e está a fazer o doutoramento em matemática no Instituto Superior Técnico. Iniciou em 2016 a sua colaboração com a Jugend Rettet, uma ONG alemã, integrando quatro missões de três semanas de duração cada uma. Ajudou ainda na reparação do navio, em Veneza, durante mês e meio.
Miguel Duarte é neto de Amadeu Castilho Soares, por sua vez filho de Alda Marques de Castilho (com rua em Sernada do Vouga) e de Miguel Soares, e sobrinho-neto de José Marques de Castilho, patrono de uma das escolas secundárias de Águeda.
Amadeu Castilho Soares, hoje com 87 anos, ganhou notoriedade com o ambicioso programa “levar a escola à sanzala” (povoações nativas rurais ou suburbanas de Angola), em 1961, quando era responsável pela pasta da Educação.
O avô Amadeu radicou-se em Lisboa desde os seus tempos universitários e Miguel Duarte viveu toda a sua vida entre a capital do país e um município vizinho. O que lhe tem dito o avô sobre Águeda? “Mais do que qualquer outra coisa, contou-me histórias da sua infância em Sernada do Vouga. Contou-me que a minha bisavó era a única professora para dezenas e dezenas de alunos da aldeia e que o meu bisavô era revisor dos comboios. Lembro-me inclusivamente de ter visitado a Sernada há alguns anos numa reunião de família”.

“Qualquer pessoa sã considera uma catástrofe aquilo que se passa no mar Mediterrâneo”

P> De onde veio esta costela humanitária?
R> Acho que todos temos essa costela humanitária. Podemos chamar-lhe compaixão. Somos todos dotados da capacidade de sofrer com o próximo e qualquer pessoa sã considera uma catástrofe aquilo que se passa no mar Mediterrâneo. A diferença de resultados reside na escolha entre ouvir essa compaixão e calá-la. Não considero ter feito nada de extraordinário a bordo daquele navio. Perante a absoluta necessidade e a minha capacidade de ajudar, limitei-me a cumprir o que me compete.

AUGUSTO SEMEDO
(entrevista publicada na edição da semana de 19 de setembro – versões e-paper e impressa)
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