“Por muito duros que os livros sejam, o mundo é sempre mais cruel” – Helder Gomes Cancela, escritor premiado

Helder Gomes Cancela

Natural de Arrancada do Vouga (Valongo do Vouga), o escritor Helder Gomes Cancela foi distinguido recentemente com o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores/2017, pelo seu romance “As Pessoas do Drama”. E entrevista ao RA, fala da importância do prémio, da sua obra e do novo livro que será publicado em breve “A Terra de Naumãn”, “um romance fantástico, que procura compreender a natureza da cultura e dos valores”

P> O que representou para si ver um livro seu distinguido com o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores?
R> Um prémio literário é sempre o reconhecimento do valor de um projeto. Mas se olharmos para a escrita como um trabalho sério e implicado, a dedicação necessária nunca é verdadeiramente compensada por nenhum reconhecimento. Escreve-se porque é preciso escrever. Depois, será recompensador se a receção crítica for positiva. No caso, este prémio significa que os leitores irão talvez prestar mais atenção aos livros.

“OS PRÉMIOS, POR IMPORTANTES QUE SEJAM, SÃO  SEMPRE SECUNDÁRIOS”

P> Pode falar-nos um pouco da obra?

R> Tenho publicado sobretudo romance e ensaio. Serão duas formas de procurar compreender o mundo: quem somos, onde estamos? Nunca há respostas definitivas para estas perguntas. Cada pessoa encontrará, ou não, as suas. Os romances serão duros e sem concessões. Mas, por muito duros que os livros sejam, o mundo é sempre mais cruel.
Entendo a escrita com trabalho de rigor. Tenho publicado pouco: cinco romances em cerca de 20 anos. É consciente e voluntário. Temos obrigação de sermos exigentes connosco mesmos. É fácil escrever depressa, mas mais importante do que isso é respeitar quem lê, respeitar a própria ideia de literatura. Os prémios, por importantes que sejam, são sempre secundários.

NOVO LIVRO “A TERRA DE NAUMÃN”

P> Sabemos que tem outro livro para sair brevemente. Pode revelar-nos algo sobre essa sua nova obra?
R> O novo livro, intitulado “A Terra de Naumãn” é um romance fantástico, que procura compreender a natureza da cultura e dos valores. É um livro de aventuras, mas que é também uma reflexão sobre a história a partir do olhar de uma personagem feminina. É um mundo extraído da imaginação e ao mesmo tempo extremamente real.

“A DÍVIDA PARA COM O LUGAR ONDE NASCEMOS NUNCA SE PAGA”

P> O que inspira a sua escrita e que ligação mantém a Valongo do Vouga, de onde é natural? Valongo do Vouga influenciou, de alguma forma, a sua obra?

R> Todos nós somos sempre a soma de tudo o que vemos e ouvimos desde que aprendemos a ver e a ouvir. Em termos de literatura, quem escreve é sempre o resultado daquilo que leu desde que aprendeu a ler, de tudo o que viu, de tudo o que ouviu. Poderia dar vários nomes de escritores que foram importantes em termos de formação. Na verdade, isso significa atravessar em parte a história da língua portuguesa, a começar na poesia medieval, passando por Camões ou, mais próximo, um autor como Herberto Helder. E todos os outros. Escrevemos sempre com as palavras que antes de nós já outros usaram. Pensamos sempre com essas palavras. Será esse o sentido da expressão “língua materna”: a língua que usamos é a que recebemos dos nossos pais. A língua é um outro lugar de nascimento. Arrancada do Vouga, onde nasci, é um lugar de origem: o lugar onde os meus pais se conheceram, onde se casaram, onde morreram. O lugar onde parte da minha família se conserva. De algum modo, é um espaço de onde, mesmo morando longe, eu nunca saí. A dívida para com o lugar onde nascemos nunca se paga, do mesmo modo que nunca pagamos a dívida para a nossa família ou para com a língua que falamos.

Autores

Notícias Relacionadas

*

Top