“Pretendemos o reconhecimento do grande público” – Danças Ocultas

Danças Ocultas

Em vésperas dos quatro concertos de apresentação ao vivo do novo disco – “Dentro Desse Mar” – o quarteto do Danças Ocultas falou ao Região de Águeda sobre a necessidade de “uma intervenção artística” que “abrisse novos caminhos”, marcando assim os 30 anos de uma carreira internacional com o objetivo de ambicionar novos públicos e um mais amplo reconhecimento. “Há três grandes sonoridades brasileiras associadas” ao trabalho de originais que os aguedenses criaram, gravados no Rio de Janeiro (Brasil). O resultado final antecipa sucesso. Artur Fernandes, Filipe Cal, Filipe Ricardo e Francisco Miguel sobem ao palco com redobrado entusiasmo

Capa do novo disco do Danças Ocultas, "Dentro Desse Mar"

Capa do novo disco do Danças Ocultas, “Dentro Desse Mar”

P> Porquê a escolha do título “Dentro Desse Mar” para este disco?
R> Escolhemos «Mar» para uma candidatura que fizemos para esta produção à Gestão dos Direitos dos Artistas, como palavra provisória. Depois, houve influências. A decisão final resulta da letra de Arnaldo Antunes, dos Tribalistas. Numa música, há uma passagem na letra que refere «dentro desse mar». Há uma outra letra, de Tiago Torres da Silva, que se refere ao mar. A letra de Carlos Renno, também brasileiro como o Tiago, tem temática de viagem, no caso inter espacial.

P> E o mar por alguma razão especial?
R> O objetivo era fazer uma produção com o Jaques Morelenbaum. Para nós, o mar é a fronteira e ao mesmo tempo a ligação entre Portugal e o Brasil. No seu interior, o mar sugere uma quantidade enorme de sons. O mar é forte, imponente e cheio de personalidade, como a carreira do Danças Ocultas nos últimos 30 anos.

NECESSIDADE DE ABRIR OUTROS CAMINHOS

P> Como surgiu a ideia de trabalhar com um dos mais reputados músicos brasileiros, o Jaques Morelenbaum?
R> O nosso anterior disco de originais, o Tarab, era já de 2009, há nove anos portanto. Fizemos entretanto outros três discos que não são inéditos. Portanto, o grande reportório para este disco vem de originais que criámos desde 2009 e foi começado a compor desde essa altura. Contudo, não estávamos confortáveis com as soluções de arranjo e sentimos necessidade de alguém que fizesse uma intervenção artística, que nos abrisse outros caminhos. Quisemos uma visão externa aos conceitos e às músicas, uma outra conceção sonora e conceptual sobre este disco. Houve várias possibilidades. Pensámos alto: «Já que viajamos por todo o mundo em concertos por que não haveremos de sonhar alto?». Foi consensual entre os quatro quando surgiu o nome do Jaques. Era o mais indicado pelo gabarito artístico e pelo facto do seu universo estético ser muito próximo. Fez trabalhos com Carminho e Marisa, que tivemos possibilidade de acompanhar.
P> Daí as gravações terem sido feitas no Brasil?
R> A ideia original seria ele vir cá; fazer trabalho de preparação e produção lá, e depois gravar cá. Porém, em conversas com o Jaques, durante um ano, fomos concebendo a ideia de ir gravar ao Brasil. Os músicos brasileiros e os convidados foram escolhidos por ele. No Brasil as influências eram quase totais, até pelo contexto.

Danças Ocultas apresentam novo disco em quatro concertos: Coimbra (31 de outubro), Lisboa (3 de novembro), Aveiro (4 de novembro) e Porto (21 de novembro)

Danças Ocultas apresentam novo disco em quatro concertos: Coimbra (31 de outubro), Lisboa (3 de novembro), Aveiro (4 de novembro) e Porto (21 de novembro)

TRÊS GRANDES SONORIDADES BRASILEIRAS ASSOCIADAS

P> Como correu o processo de gravação do disco no Rio de Janeiro?
R> Basicamente, este processo de preparação durou quase um ano. Fomos enviando partituras e maquetas, bem como propostas de arranjos. Fomos sempre falando em instrumentos, nunca em músicos em particular. Que tipos de instrumentos poderiam ser associados. Fomos gravando as nossas próprias partes ainda cá. Quando fomos para o Brasil, basicamente, havia uma planificação para gravar uma música por dia. Na véspera, o Jaques fazia as diligencias para convidar os músicos que ele entendia como mais adequados para cada música. O universo musical no Brasil é tão gigantesco que não foi preciso fazer isso com antecedência. O Jaques estava muito mais focado na gestão dos instrumentos e das sonoridades. Transmitíamos a ideia e ele, mediante a ideia, fazia os convites aos músicos necessários. Foi o seu grande trabalho, um trabalho incrível.

P> O disco está a recolher elogios à medida que o mundo artístico o conhece. Que instrumentos e sonoridades se evidenciam nesta partilha luso-brasileira?
R> No disco, há três grandes sonoridades brasileiras associadas ao nosso trabalho: a linha do samba e do choro, nomeadamente com a sonoridade do pandeiro; a linha da bossa nova, com a sonoridade da caixa e da guitarra elétrica; e ainda a sonoridade mais de origem africana, nomeadamente as percussões. Em função da estética de cada música, o Jaques ia adequando estas músicas e instrumentos. Os músicos que ele trazia davam um cunho muito pessoal.

VOZES DE CARMINHO E CANTORAS BRASILEIRAS

P> Em relação à participação da Carminho e das cantoras brasileiras Zélia Duncan e Dora Morelenbaum na gravação de alguns temas, como surgiu a ideia de as convidar?
R> A Carminho foi uma escolha nossa, porque participou no nosso disco ao vivo Amplitude. Gostámos tanto do resultado que desta vez escrevemos uma música adequada à sua voz. Por outro lado, o último disco de Carminho foi gravado com o Jaques, o que facilitou as coisas. O Jaques gostou bastante da nossa sugestão. Em relação a Zélia, era uma música instrumental, “As Viajantes”, escrita com a letra do Renno. Como é uma música bastante diferente do habitual, quisemos que a voz fosse com uma personalidade muito vincada, de um ambiente musical alternativo. A Zélia tem uma voz grave e potência sonora. A Dora é quase o oposto: música muito leve, adequada a uma voz leve, jovem e fresca. A sugestão foi do Jaques, que nos mostrou e gostámos muito da voz. O resultado está muito bom.

P> O Danças Ocultas celebra 30 anos de carreira em 2019. Têm sido anos com espetáculos pelo mundo inteiro. Com este disco, o grupo espera adicionar destinos novos à sua carreira? Qual o palco que o Danças Ocultas ainda almeja ter?
R> Acima de tudo, as linhas estéticas que este álbum abriu permitem fazer novas abordagens na apresentação dos espetáculos. Por um lado, pretendemos ter o reconhecimento do grande público em Portugal e que, com este disco, possa também descobrir a discografia anterior. Em termos internacionais, ambicionamos poder alimentar o circuito de espetáculos para novas salas e novos territórios, para além daqueles em que temos atuado.

AUGUSTO SEMEDO (texto)
ALÍPIO PALHINHA (fotos)
Autores

Notícias Relacionadas

*

Top