Quem te manda a ti, sapateiro, tocar rabecão? , por João Graça (*)

Há um provérbio árabe que diz “se uma pessoa te chamar burro, ignora-a; se várias pessoas te chamarem burro, desconfia; se todas as pessoas te chamarem burro, verifica se tens cascos”. É possível que uma ou muitas pessoas possam estar erradas, mas é pouco provável que todas as pessoas incorram no mesmo erro.

É possível convencer uma criancinha que o rio acaba depois da curva até onde ela o consegue ver, mas basta leva-la até lá para ela perceber o erro em que foi induzida.

Sabemos que a grande maioria das pessoas que mandam construir uma casa, dificilmente a concluem sem proceder a alterações do projecto. Isto acontece porque a dita maioria das pessoas não possui um conhecimento elementar de arquitectura e dificilmente compreende, de forma razoável, o conceito espacial em abstracto. No entanto, após paredes erguidas, percebem de imediato que algumas divisões são manifestamente pequenas ou demasiado grandes, relativamente ao que tinham imaginado e, não raras vezes, alteram a localização de portas e janelas porque entendem que as inicialmente propostas no projecto não servem o racional uso que lhe pretendem vir a dar.

 

Estou em crer que se o projecto das obras, chamado de regeneração urbana, proposto para a avenida Eugénio Ribeiro e áreas circundantes, fosse posto à apreciação da população, as pessoas fariam uma interpretação das plantas, mais ou menos acertada, mas aceitariam a proposta delegando nos autores do projecto o resultado final da obra.

No entanto, restam-me poucas dúvidas (ao que vejo e pelo que vou ouvindo) que após a conclusão da empreitada o resultado final possa agradar a alguém.

Deixámos de ter uma avenida e uma praça para passarmos a ter um emaranhado de vias com uma coisa lá ao fundo.

Podem-se invocar todos os argumentos e explanar imensos conceitos em defesa da obra feita mas não serão, seguramente, suficientes para demolir o mais elementar bom senso que a prática e o bom gosto determinam.

Dizia o saudoso José Hermano Saraiva, a propósito da estética do novo-riquismo, que é costume dizer-se que os gostos não se discutem mas, acrescentava, que essa afirmação não impedia que houvesse o bom gosto e o mau gosto.

 

Um dos objectivos da dita regeneração urbana, ao que sei, era evitar os carros dentro da cidade. Além do erro primordial imposto por esse conceito – pois é certo e sabido que aonde não vão carros não vão as pessoas – conseguiu-se um feito inédito: teremos menos carros mas durante mais tempo. É indesmentível que passará a haver menos de metade dos lugares disponíveis para estacionar automóveis nas áreas intervencionadas mas, pasme-se, passaremos a ver muitos mais carros do que anteriormente. Não por haver, de facto, mais carros mas pela simples razão de que nos plantaram os carros em frente dos olhos.

Dispostos de forma serpenteada, os carros estão sempre presentes quer vamos a conduzir quer circulemos a pé. Se vai passar a ser difícil estacionar, não irá ser mais fácil sair de marcha atrás e com pouca visibilidade. Viaturas mais compridas do que o normal, ficarão com a frente na via ciclável ou com o rabo no meio da estrada. Conseguir ver a avenida de uma ponta à outra, já foi…

Curiosamente, apesar da preocupação de desimpedir e desobstruir, tudo parece mais impedido e mais obstruído!

Na questão não menos preocupante da drenagem de águas (apenas afectará quem lá tiver que passar)  a coisa promete. A chuva ainda mal se fez sentir e a festa já começou.

Mas, como diria a outra, tudo foi e é uma festa.

(*) – Rubrica “Fractura Exposta”

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