Temos promovido a ascensão dos bons exemplos? , por José Manuel Alho (*)

José Manuel Alho

Na sequência do massacre ocorrido em Paris, no passado dia 7 de janeiro, que atingiu a sede do jornal satírico francês Charlie Hebdo, no XI arrondissement daquela cidade – supostamente como forma de protesto contra a edição “Charia Hebdo”, que causou polémica no mundo islâmico e foi recebida como um insulto aos muçulmanos – poderia nesta ocasião ensaiar mais uma reflexão que pouco acrescentaria ao que já foi adiantado por muitos jornais e comentadores. Previsível. Desnecessariamente.

"Que sociedades temos vindo a forjar? Que líderes temos vindo a escolher? Que valores temos vindo a promover? "

“Que sociedades temos vindo a forjar? Que líderes temos vindo a escolher? Que valores temos vindo a promover? “

Por isso, e assentando que a estupidez e o fanatismo não têm cor nem religião, a que se juntarão a condenação e o repúdio por tão infame ataque, importa conjugar estas manifestações extremistas com outros sintomas civilizacionais num quadro (bem) mais abrangente, sobre o qual pouco se vai falando.

Não querendo, por capricho efémero, furar o consenso quanto à impressiva marcha do passado dia 11 contra o terrorismo e pela liberdade de expressão, podemos começar tão despretensiosa apreciação quanto esta pela lista de alguns dos nomes que marcaram presença naquele desfile, que deixo à ponderação do leitor: François Hollande, Angela Merkel, David Cameron, Matteo Renzi, Benjamin Netanyahu, Mahmoud Abbasno, Ahmet Davutoglu, ministro dos Negócios Estrangeiros da Turquia, Ali Bongo, o Presidente do Gabão, o Rei da Jordânia, Abdallah II, Viktor Orban, o chefe do governo húngaro, o ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Serguei Lavrov, o seu homólogo egípcio, Sameh Choukryou e Passos Coelho… Fiquemo-nos por aqui que basta.

Estes nomes poderiam figurar num qualquer álbum como fiéis, bons e exemplares escoteiros? A quantos deles o amigo leitor compraria um carro usado ou confiaria a chave da sua casa?

Mas, neste leque de importantes individualidades, com importantíssimas responsabilidades na definição e políticas com direta influência na vida das pessoas, não constarão atores que têm, por ação e omissão, contribuído ultimamente para a exclusão social, para o empobrecimento generalizado – mormente nesta Europa outrora vanguardista e agora vergada à sanha austeritária – e para o assassinato em massa da Esperança? Já nem vale a pena socorrer-me da interrogação formulada pela organização Repórteres Sem Fronteiras («Porque é que representantes de regimes que são predadores da liberdade de imprensa vieram a Paris prestar homenagem ao Charlie Hebdo, uma publicação que sempre defendeu o conceito mais radical de liberdade de expressão?») pelo que exorto qualquer mente razoavelmente esclarecida a associar linearmente estes atentados terrorista a fatores exclusivamente religiosos. Na verdade, cumprirá averiguar: muitos dos nomes dos marchantes acima referidos combinarão, qual rima idílica, com Liberdade, com Humanismo, com Solidariedade, com Tolerância, com Verdade?…

E aqui entramos numa análise que visa questões endémicas e porventura viscerais. Que sociedades temos vindo a forjar? Que líderes temos vindo a escolher? Que valores temos vindo a promover? Não terá a hipocrisia – que, por exemplo, propagandeia os predicados de interesseiras e pontuais ações humanitárias em detrimento do Humanismo – tomado o estatuto de “escola útil” que a tudo responde?

E nós? Nas nossas vidas, seremos exemplos que valeria a pena seguir? No emprego, na rua ou nas escolas teremos promovido a ascensão dos bons exemplos? Perante o déspota ou o insolente, temos feito aquilo que exigimos aos políticos ou ter-nos-emos confinado ao silêncio cúmplice dos hipócritas, que valida frágeis maiorias de conveniência? Teremos sempre estado do “lado certo” das causas em que nos envolvemos? E a troco de quê?

(*) – Professor

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