Uma carta aberta ao presidente do conselho de administração do Centro Hospitalar do Baixo Vouga

Com data de 5 de outubro de 2014, a docente Cristina Cruz enviou uma carta ao presidente do conselho de administração do Centro Hospitalar do Baixo Vouga, José Afonso, relatando o processo de assistência que envolveu o seu pai e que tornou pública. Que transcrevemos na íntegra:

”  Exmo. Sr. Presidente do Conselho de Administração do
Centro Hospital do Baixo Vouga, Dr. José Afonso,

Os meus mais respeitosos cumprimentos.
Serve a presente o propósito de publicamente agradecer-lhe pela excelente gestão dos serviços levados a cabo no centro hospitalar a que preside, pois eu, bem como toda a minha família, estamos extremamente gratos por ter contemplado o meu pai com OITO marcações para a mesma cirurgia, desde fevereiro do corrente ano.
Efetivamente, creio que o meu pai não será o único premiado, mas quero acreditar que é especial e portanto não haverá muitos mais a receber tal distinção.
Como pessoa atenta aos prémios concedidos pelo CHBV, estará a par dos critérios que presidiram para que o meu pai fosse o feliz contemplado. Contudo, para que não pensem que houve favorecimentos, passo a elencá-los para que todo e qualquer cidadão, do mais cético ao mais crente, possa ficar esclarecido.
Depois do braço direito do meu progenitor, Manuel Carlos da Silva Cruz, se ter deslocado sete vezes (luxação do ombro) e os médicos que o assistiram no hospital outras tantas vezes lho terem colocado no sítio, o paciente foi encaminhado para cirurgia em julho de 2013. Eis então que começa o seu percurso para a final do concurso, sobre o qual nem informações lhe deram. Ainda assim, conseguiu preencher os requisitos excelentemente, ou não estaria a fazer-lhe este merecido agradecimento público, senão vejamos:

1º agendamento: 11 de fevereiro de 2014. Nesta data, a anestesista recusou-se a operar por não saber os resultados da consulta de endocrinologia que estava pedida há 3 anos, motivada pelo aparecimento de dois nódulos na supra renal. Esta consulta foi agendada para 15 de setembro de 2014… Felizmente, este problema está resolvido pelos nossos próprios meios, após recurso a consulta privada da especialidade e resolução no Centro Hospitalar de Coimbra. Esta foi a primeira tentativa de boicote ao trabalho do Sr. Presidente.

2º agendamento: 6 maio de 2014. A Sra. Doutora, responsável pela anestesia, adiou, mais uma vez, a intervenção, por não estar em posse dos resultados de um enfarte do miocárdio ocorrido a 21 de setembro de 2011, tratado no Hospital D. Pedro, Aveiro. Esta situação só foi possível porque a senhora doutora que seguiu o meu pai, neste episódio, achou desnecessário voltar a vê-lo ou segui-lo. Foi então marcada consulta na cardiologia para 30 de junho de 2014 e apresentado relatório dos resultados da mesma.

3º agendamento: 8 de julho de 2014. Greve do pessoal médico (Até o governo contribuiu para este prémio!!!)

4º agendamento: 15 de julho de 2014. Sem justificação. (E, para quê? O que interessa é que passou mais uma fase da competição!!!!)

5º agendamento: 18 de agosto de 2014. Sem justificação. (Há que aproveitar bem a praia, até porque o Verão anda envergonhado!!!!!)

6º agendamento: 5 de setembro de 2014. Sem justificação. (Contribuir para o sucesso do doente neste concurso…)

7º agendamento: 25 de setembro de 2014. Greve dos enfermeiros. (O Governo sempre atento às necessidades dos outros!!!!!)

8º agendamento: 2 de outubro de 2014, última quinta feira, finalmente!!!!! Suponho que por esta altura já saiba como correu a cirurgia…… todas as pessoas que, através de mensagem ou telefonemas, me foram contactando a mim ou à minha mãe, que acompanhámos o paciente todo o dia, também quiseram, mas antes disso perguntavam, já sem acreditar muito: “Sempre é hoje?” ao que fomos respondendo: “Sim, finalmente! Já está no quarto, deitado na cama, a soro, desde as 13h00. “Vamos aguardar, porque ele é o quarto e último dos agendamentos para hoje…” E assim fizemos, aguardámos. Mas que piada teria, depois de tanto tempo, ser desclassificado por não ter o número de agendamentos necessários para chegar à final do concurso!!??? Alguém decide ajudar o meu pai nesta façanha e, então, apesar de estar a soro há seis horas, por volta das 19h00, vem a equipa médica responsável pela cirurgia informá-lo que, dado o adiantamento da hora e para que ele pudesse ganhar o concurso, não procederiam à sua operação e que, como ele estava acompanhado, se quisesse, poderia ir para casa porque também não lhe poderiam garantir que ele fosse operado ao outro dia!!!

Claro que nem a equipa médica nem o pessoal auxiliar está incluído neste agradecimento, pois em nada contribuíram para este desfecho, o mérito é somente do Sr. Presidente, da sua sublime gestão e condições físicas do Hospital de Aveiro, pois realmente um bloco operatório de ortopedia para toda a região do Baixo Vouga é mais do que suficiente. As existentes no hospital de Águeda eram um verdadeiro desperdício, pois jamais permitiriam a existência e um concurso destes, já que o seu funcionamento nem de razoável se poderia classificar, uma vez que nem listas de espera tinha e portanto o seu funcionamento era totalmente desconhecido pelo cidadão comum. A gestão de v/ exa. tem sido exímia na promoção e marketing do Centro Hospital a que preside, pois por todo lado se tem ouvido o povo a tecer grandiosos elogios pelo tempo passado nas macas dos corredores espalhados pelos diferentes corredores, até porque se sentem muito menos sozinhos com todas as pessoas super ocupadas que vão passando por ali, ao mesmo tempo que agradecem por elas não os aborrecerem com perguntas, exames ou auscultações, que em nada ajudariam à sua convalescença.
Apesar de extremamente agradecida, não quero maçar mais v/ exa., apenas aproveito para o informar que ontem, 4 de outubro, o meu pai, já viciado em aceder aos vossos excelsos serviços, foi novamente assistido no serviço de urgência com mais uma luxação no braço, depois de tentar apanhar um diospiro de uma árvore pouco mais alta do que ele…

Sem mais de momento, renovo os meus cordiais e respeitosos cumprimentos.

Atentamente
Cristina Cruz

P.S.: Ironias à parte, é de lamentar que um serviço como o da ortopedia do CHBV e em particular no Hospital de Águeda, que foi um exemplo a nível nacional, pelo profissionalismo e empenho por parte dos médicos especialistas, pela celeridade e eficácia na intervenção, tenha tomado um rumo onde populam episódios como este, que seguramente não será único e que envergonham a classe médica e supostamente a gestão hospitalar.  “

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