Velho São Sebastião – santuário das coisas sentidas!

Campo São Sebastião, em Águeda. Onde o Recreio de Águeda jogou até 1994 está siautada a Câmara Municipal e a Praça do Município

O velho São Sebastião era do tempo em que a coleção de cromos desvendava rostos de jogadores que a rádio pronunciava à distância permitida pelas ondas hertzianas. E do tempo dos rapazes grandes, de carne e osso, fielmente enxergados pelas proximidades física e relacional. Rapazes que os olhos seguiam ao domingo e a mente parecia imitar nas jogatanas de rua com os amigos. Os primeiros, eram ídolos fantasiados pelos relatos radiofónicos, potentados em emblemas capitais; os segundos, a autenticidade, modelos genuínos, cuja legitimidade permitia espontaneamente seguir!

Onde está situado o edifício municipal havia uma baliza com traves de madeira e esquinudas. Quatro postes de cada lado iluminavam à noite e um piso de terra batida acolhia o talento dos futebolistas

Onde está situado o edifício municipal havia uma baliza com traves de madeira e esquinudas. Quatro postes de cada lado iluminavam à noite e um piso de terra batida acolhia o talento dos futebolistas

O velho São Sebastião era o nosso estádio, o estádio dos nossos craques, dos craques da nossa terra. O santuário da nossa imaginação!
Santuário de uma imaginação que se visionava a representar a nossa terra; terra que era o mundo de coisas nossas, transformadas em causas ardentes por expressarem uma vivência direta. Um mundo de coisas com um sentido e sentidas, que incitavam uma consciência, germinando nela a alma capaz de mover as coisas…

ÁGUEDA – A VILA E O RECREIO

Morava então junto à Alta Vila, pedindo ao “senhor predizente da câmara” que asfaltasse a rua ainda de terra batida; corria e saltava de aventuras por entre as vinhas que davam para o hospital e pontapeava bolas feitas de meias velhas com os golos a entrarem no portão do vizinho; frequentava a escola primária do Adro, jogando à bola nos intervalos das aulas no terreiro, fintando árvores de pequeno porte entre a poeira ou a lama do adro da igreja; subia diariamente a Venda Nova deliciado com a bola de Berlim, acabada de sair do forno da pastelaria que ali funcionava, um mimo do pai do Nelo, meu colega de escola; passeava com o meu paciente e carinhoso avô Miguel pelas ruas da garbosa vila, conhecendo gente de quem não recordo o rosto mas que me permitiu memorizar uma benevolentíssima atmosfera; descia nos passeios domingueiros de família até ao café Moderno, ex-libris da vila, furando entre mesas e cadeiras até à exaustão, procurando enganar a inevitabilidade de regressar às aulas no dia seguinte; trepava para a Fargo no festivo aniversário dos bombeiros, deliciado com a fanfarra e o desfile de viaturas ao som da sirene, em ruas alegradas com gente; questionava a razão da farmácia Alla ter ainda o “ph” à sua porta quando na escola aprendera a escrever com “f”; envaidecia-me saber que percorria ruas com nomes de Luís de Camões e Vasco da Gama, personagens que sobressaíam da história ensinada pelo regime de então, sentindo que a minha terra também era aquela pátria triunfante e uma potência do mundo; banhava-me no rio até as ratazanas entrarem sem licença no saco de pano que deixara de ter o pão para a merenda… E via os jogos do Recreio!

A equipa do Recreio de Águeda, campeã distrital de Aveiro em 1974, dando a volta de honra. A promoção à 3ª divisão nacional coincidiu com o último jogo oficial realizado no campo São Sebastião: vitória por 5-0 ao Fermentelos. Seguiram-se 30 épocas consecutivas do clube em todos os campeonatos nacionais de futebol

A equipa do Recreio de Águeda, campeã distrital de Aveiro em 1974, dando a volta de honra. A promoção à 3ª divisão nacional coincidiu com o último jogo oficial realizado no campo São Sebastião: vitória por 5-0 ao Fermentelos. Seguiram-se 30 épocas consecutivas do clube em todos os campeonatos nacionais de futebol

Era então um miúdo temerário com as cabeçadas balísticas do Adolfo, contemplativo com a presença imperial do Gorgulho, impressionado com a raça emocionada do Rui Rodrigues, empolgado com as fintas inquietas do Zé Pedro… O Silva, o Badaró, o Armando, o Sucena, o Valdemar, o Eduardo, o Litos, o Pinto, o Tocá, o Gil… Recordo-me até das cavalgadas impetuosas do Pelé, rasgando dezenas de metros até à linha final para depois propulsar a bola cruzada para a área de baliza!
Do Lebre, do Pingas e do Telha ouvia falar os mais velhos com a admiração de que estavam ali potenciais craques, todavia marcando passo nas marchas obrigatórias e intermináveis da tropa… para mais tarde poder apreciar, mais uns que outros, o seu talento!

AVENIDAS QUE RASGAVAM O FUTURO

Assisti à inauguração do atual estádio, ocorrida um mês antes do Abril daquela revolução, deambulando alegremente por entre as entidades oficiais que presidiram ao ato. Tenros 10 anos… Ia sozinho, ou com colegas de traquinices, porque em casa era o único que se aprestava para as coisas do futebol.. O Benfica foi o convidado para tão solene ocasião, apresentando-se perfumada com Shéu, Chalana, José Luís e outros talentosos jovens que despontavam para o estrelato.

Rasgavam-se então as avenidas da vila jardim. Como o estádio, avenida para um novo Recreio, também uma escola e arruamentos, o cineteatro e uma fundação museu… Tantas avenidas num instante de esperança perturbada por transformações agitadas!
A nova escola nas Barreiras, esticando a urbe encosta acima, recebia o nome de Fernando Caldeira – fidalgo que foi político e poeta; atribuída ao médico Eugénio Ribeiro era alinhada uma verdadeira avenida, unindo o velho São Sebastião à escola de onde haviam saído empreendedores para a indústria e o comércio local – enquanto prédios brotavam onde antes persistiam vinhedos; e o novo estádio, aproveitando uma modesta casa agrícola para balneários (que seriam provisórios mas durariam 30 anos), tornava defunto o velho São Sebastião.
Anunciava-se o progresso! No bairro da Venda Nova, cruzado por uma antiga estrada real, o vulgar campo de futebol daria lugar à nobreza do idealizado centro cívico. Destino para oferecer nova dignidade aos Paços do Concelho e opulentar a cidade do futuro.

A CIDADE VERTICALIZADA AO RIO

Desconjuntado, o velho São Sebastião persistiu anos enfiado numa aridez moribunda, vencido pelo destino de ser estroncado por edifícios que foram crescendo. Enquanto as intenções demoravam a concretizar-se, acolheu festas em honra do santo e deu até as boas vindas a um candidato presidencial, Ramalho Eanes, em pleno período de campanha eleitoral. Coisa que, sem o santo assentir se a política podia ser convidada para a mesma mesa da religião, levantou, logo se vê, acesas argumentações…
O campo de basquetebol, terroso e com marcações invisíveis, que existia entre o campo de futebol e a rua José Sucena, acolhia jovens empurrados para o râguebi. Às ordens do Guilhas e do Ramiro Loureiro, esmurravam-se joelhos e ancas num desporto que o pós-abril quis promover, dando utilidade final ao que restava do velho São Sebastião.

Até que um dia o progresso anunciado diluiria finalmente o velho São Sebastião à memória dos homens que o viveram a preto e branco. Sem que o prometido arejamento, com a ligação em avenida da escola secundária à EN1, oferecesse à urbe a cor de um mundo que os novos televisores projetavam como recente salto de modernidade.
A atual cidade continua assim verticalizada ao rio mas carece da horizontalidade que lhe daria equilíbrio. Que o desmembramento do velho São Sebastião possibilitava com a construção dessa grande avenida transversal. Os homens percecionaram bem mas os anos de aridez moribunda fizeram com que mudassem mal.

AUGUSTO SEMEDO
Autores

Notícias Relacionadas

*

Top