Volta A França Sem Bicicletas

Afonso Melo

Em redor das vitórias morais de uma Selecção Nacional que parece estar fadada na velha guerra da estética contra a prática. E, nesta guerra, há uma que leva sempre a melhor

LYON – Marselha, Saint-Étienne, Paris, Lens, Paris, Saint-Étienne, Lyon… A volta cumpre-se lentamente à medida que o tempo passa. Quilómetros e quilómetros atrás de uma bola e não numa bicicleta. Volta a França na mesma.
Carlos Miranda, o histórico director de «A Bola», que fez o favor de me ensinar muitas coisas, foi o mais brilhante escritor sobre ciclismo que alguma vez li. Por causa dele sempre gostei mais de ler a Volta a França do que de ver a Volta a França. O título desta prosa é dele, embora eu ache que ele escrevia poesia.
Não se pode dizer que esta fase final do Campeonato da Europa de 2016 esteja a ser entusiasmante. Há equipas boas e uma ou outra muito boa, mas tantos e tantos anos a calcorrear Mundo por via do futebol cria um calo de exigência difícil de deitar para trás das costas.
Talvez nunca Portugal tenha encontrado um Europeu tão a jeito das suas virtudes e insuficiências. Espanha e Alemanha jogam quanto baste, França e Itália parecem irmãs gémeas, a Croácia dá nas vistas mas também cai nos erros de sempre. Não se adivinham surpresas e os lusitanos podiam muito bem ser uma delas não se enredassem mais uma vez em equívocos que os faz chegar a França sem um onze definido e deixando no ar tantas e tantas dúvidas que já nenhum de nós acredita que o próprio Fernando Santos não as tenha.
Que falta, afinal? Depois da desilusão brasileira de há dois anos parecia que se havia aprendido definitivamente como encaixar Ronaldo numa equipa que, definitivamente, não foi feita para ele. E, convenhamos, tinha de o ser. Cristiano Ronaldo está num patamar tão superior a qualquer outro dos jogadores deste Campeonato da Europa (tirando Iniesta, noutro estilo bem diferente) que necessita de ser ele próprio para fazer a diferença. E essa é, quanto a mim, uma questão táctica, essencialmente táctica.

Recuemos no tempo…

Igualmente uma questão mental. A mesma questão mental que fez com que nunca a Selecção Nacional ganhasse uma grande competição embora em alguns casos tenha sido a melhor equipa dos torneios.
Recuemos 50 anos no tempo. Em 1966, em Inglaterra, no mês de Julho, Portugal venceu quatro jogos consecutivos, marcando 14 golos e batendo pelo caminho uma fortíssima selecção húngara e o Brasil bi-campeão do Mundo, além de recuperar de uma desvantagem de 0-3 frente à Coreia do Norte nos quartos-de-final. A derrota que se seguiu, frente à Inglatera, teve Portugal de menos em relação ao que se vira até aí. Como que se esgotara no caminho até ao último dos jogos, assumindo que cumprira o seu dever. Cumpriu-o. Estamos todos de acordo ao sublinharmos o brilhantismo dessa primeira participação portuguesa numa fase final de um Campeonato do Mundo. Como estaremos quase todos de acordo (ingleses não contam) ao dizer que Portugal foi a melhor equipa do Mundial. Foi e não ganhou. Também foi a equipa mais brilhante do Euro-2000 e ficou pelas meias-finais. E foi, novamente, a melhor equipa do Euro-2004 e perdeu na final contra uma maçadora Grécia.
Talvez Portugal esteja condenado a não ganhar. Talvez esteja fadado para ser elogiado e não levar a taça para casa. O melhor dos que não ganham…
Ou talvez, um dia, ultrapasse essa maldição da estética contra a prática e seja a selecção alegre de um país triste. Já esteve perto de acontecer. Se for verdadeiramente grande, a História levá-lo-á ao colo.

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